sábado, 3 de janeiro de 2009
A serpente do paraíso
Conhecido desde 1890, quando o primeiro homem branco botou os pés atrás de ouro, o vale de boa vista foi visitado regularmente por vários pesquisadores, encantados com as riquezas das águas e fauna. Distante do vale vinte quilômetros, erguia soberana, sob a altura dos olhos do abeservador; ora azulada, ora esverdeada, a imensa muralha ígnea em forma de montanha, que por cima dela formava o imenso planalto do índio, cortado por córregos de águas cristalinas que caía no vale formando belas cachoeiras. Ao leste, por onde surgia o sol, estendia por léguas a fios, o serrado baixo, rasteiro, ora de capins do brejo, ora de arbustos com frutos deliciosos para os animas silvestres. Nas chamadas veredas, por onde a água brotava do solo, aqui acolá, cobertas de musgos, gigantescas pedras de arenitos de granulação brancas estendia às vezes por distancia de duzentos a trezentos metros, formado estranhos desenhos obstratos, ajudados pelas moitas de Lobeiras, e de outros arbustos nativos das veredas. No mesmo rumo do sol nascente, distante cem quilômetros, outras cabeceiras de riachos eram formadas, e suas águas deslizavam-se mais para o sul, formando córregos de cincos metros de larguras por um e meio de profundidade, ricos em peixes pequenos e coloridos, depois de passar pelo sul alguns quilômetros, voltava e passava entre o vale, serpenteava e, como os outros menores, desbocava no rio são Lourenço, passeando por entre o pantanal mato-grossense.
Corria o ano de 1914.O homem que estava à beira do rego de água olhou para o garoto de quatro anos em cima de um cavalo. O garoto fitava ao longe as montanhas ao oeste.
_ Será aqui, pai?
_ Sim. Será aqui. Um belo lugar. Faremos uma casa por ali assim. Mais embaixo, será o monjolo. Muitas águas, muitos pastos nativos. Será aqui mesmo.
_ Sim, pai. Mamãe irá gostar muito daqui! Eu serei um bom homem de arreios!
_ Não, filho. Você irá estudar. Arrumaremos um bom professor. Você não será como eu!
_ Pai...
_ Não discuta comigo!
Em 1922 um estranho homem apareceu na fazenda. Era demasiado branco e gordo. Trazia dois cavalos com grandes malas de couros secos. Tinha dificuldade e falar a língua local. Souberam depois que era um alemão. Nos dias que permaneceu por lá andou por todos o vale. Desenhava muito e escrevia, empalhava pássaros, e todos os tipos de insetos. O pequeno garoto divertia-se ao vê-lo desenhar.
_ Para que o senhor faz isso? Porque não trabalha ao invés de rabiscar papel?
_ Isso é um trabalho sério garoto. Mostro para o resto do mundo a riqueza que vocês tem aqui. Veja este belo passaro. Não existe em outras partes do mundo!
_Meu pai quer que eu estude. Talvez eu aprenda a escrever!
O gordo homem nada disse. Dois meses depois, quando partia, levava uma companhia. Levava o garoto.
_ Um dia voltarei, pai e mamãe! _ Gritou como um último adeus sem saber naquele momento de tristeza que existia mais dois garota que seria levado pelo gordo naturalista alemão Rodolf.
* * *
Descendo pelos córregos, rumo ao oeste havia varias aldeias de índios bororos. No tempo das águas ou tempos das enchentes dos rios, eles subiam em grandes grupos. No começo passavam sem se importar, desconfiados. Um dia pararam. Trazia uma garota magrinha e pálida. O casal os recolheu. Deram-lhes alguns remédios, carne seca, alguns velhos cobertores e algumas panelas de ferro. Foi um bom começo de amizade. Nos anos que se seguiam, vinham em grande grupo, paravam poucos tempos, subiam para o leste, e só retornavam quando as águas abaixavam. Assim foi ano após anos. Em meados dos anos trinta, passaram e não retornaram. Eram uns trinta índios. O casal sobe depois, pelos viajantes que pernoitavam em sua casa que foram todos assassinados perto do estado de Goiás. No meados de trinta e cinco, o velho cacique que se chamava Tugure com cinco acompanhantes esteve com o já idosos casal. Estavam tristes e nervosos.
_ És um bom homem branco. Tem sempre sido amigos dos índios. Mas ate quando? Veja, há brancos por toda parte! Não temos mais caça! Estão acabando com o mato! Tem subido para cima?
Não? Mataram quase todos nós; ate criança. Isso é bom? Não! Más você um grande ‘jopurocura’ Deixaremos vivo. Você amigo nosso! Más outros não! Mataremos todos! Deixaremos que viva por que seus dias estão acabando! E seu filho? Será bom como o pai? Ira respeitar terras de índio?
_ Meu filho será um grande amigo dos índios. A vida dele é este vale. Cada vez que vem aqui não quer mais voltar. Já sabe muito. Ele irá defender estas terras e a de vocês!
_ha! Isso bom. Bom mesmo! “Brade! Você um bom brade!” Não é preciso. Iremos embora. Sua tosse pegar em nós. Pra lá. Iremos pra lá.
Todos olharam para ao longe da montanha. Do outro lado dela o que podia avista-se era pequenas nuvens brancas despontando para o imenso céu azulado.
PRIMEIRA PARTE.
Outubro de dois mil e quatro.
Lá de cima, a visão da cidade de B continua sendo privilegiada, é bem verdade que outrora, ela era bem mais bonita nos meses chuvosos. Ela se tornava mais verde, os vales, os gramados por onde corriam as molecadas atrás das bolas ou pipas. Mesmo depois de uma grande época sem chuva, e do grande incêndio, ela voltou a tornar-se verde novamente. Mais agora é outubro, e nestes dias o sol torna-se vermelho e sem brilho, fazendo lembrar uma velha moeda de cobre. Um calor infernal, irritante, enfumaçado, cobre a cidade como uma teia de aranha. O normal nos dias passados, como este, a população se refugiava nas grandes piscinas naturais, aos pés das montanhas azuladas, paraíso defendido a unhas e dentes, desde a fundação da cidade. No centro, uma praça fora criadas as pressas, com seus postes agora pintados de brancos, centenas de crianças, adolescentes, enchia-a com parecer festivos, agitando bandeiras em meio a gritarias alegres. Os professores organizavam todo aos berros, esfregando os olhos irritados, vermelhos e arenosos, as camisas suadas e pegajosas davam lhes aparências estranhas de ratos molhados, correndo de um lado paro o outro em busca de oxigênio.
“Menores na frentes” berravam, colocando o pulmão em aceleração máxima, arrastando as crianças para seus devidos lugares. A poucos metros, um cinegrafista esperava impaciente, desolado. Derrepente, num gesto rápido, aponta a câmera para o começo da rua. Em cima de um jeep aberto podia se ver a sulieta feminina de Dora Lopes. Abriu os braços jogando beijos para a multidão em delírio. Beirava as sessenta anos. Retirou os óculos escuros e sacudiu a cabeleira loira. Seus olhos claros, de um azul penetrante, fitaram a multidão sorrindo. Quando o carro passou por mim, seus belos olhos me fitaram como duas bolinhas de gude, e por frações de segundo, lançaram-me chispas de ódio. Minutos depois ouvi sua voz cristalina soar em um alto-falante. E continuei a ouvi-la, enérgica, aveludada e magnética, enquanto subia por uma rua pouco movimentada. Dora Lopes continuava mais senhora de si que nunca. Lamento muito ter sido aquele o nosso último encontro. Deixo aqui minha profunda admiração por ela. Sinto muito que nossas idéias não tenham sido compartilhada dos mesmos ideais.
* * *
É bem verdade que agora estou mais observador que trinta anos atrás.
Conhecia bem o interior daquela velha mansão. Lembro-me muito bem de seus aposentos úmidos de outrora, com seus cheiros de suor e risadas masculinas, de homens brutais, comandados por Teodoro, nos finais de semanas ou dias de pagamentos. Reformada há pouco tempo, certas coisas continuavam em seus lugares, como aqueles velhos ganchos de metal amarelo. Continuavam ali nos mesmos lugares, enfileirados, lado a lado, agora tristes, sem qualquer chapéu, pareciam sem brilho, sem orgulho e sem vidas. Pelos corredores, velhas fotografias restauradas, traziam novos brilhos, novas cores. Até mesmo o rosto de J Vilela parecia um pouco diferente. Lá em baixo, novas construções foram construídas, varandas gigantescas do lado sul, outra menor ao norte, churrasqueiras, banheiros revestidos de cerâmica ate ao teto, funcionários bem vestidos catavam qualquer folhinha que teimava em cair sob o piso bem varrido. Grandes mesas estavam lotadas de jovens barulhentos que haviam chegado de todas as partes. Estas e outras coisas não cabem a mim criticar, sabendo do avanço da modernidade. Na verdade meu tempo era um outro tempo. Mudou tão rápido nestes últimos quarenta anos que fui ficando, ficando para traz, sem poder me adaptar a certas coisas, parei então, resolvi apenas olhar, e escutar. De certa forma, aqueles ganchos de colocar chapéus e eu, tínhamos muito em comum.
* * *
Não sou assim um sujeito esquisito como teimam em pintar certas pessoas. Mas também não gosto de ser olhado como um bicho em extinção. A moça que se chamava Bárbara, minha guardiã, nos dias de terror que assombrou a cidade, me olhou como tal. Levou-me para os aposentos onde ficaria nos dias do velório de J e dos outros. Foi clara e fria no primeiro encontro.
_ Tenho ordens de não deixa-lo sair só pelas ruas. Temos um sargento que lhe fará companhia, se for preciso. _ disse com as mãos atrás das costas.
_ Estão com medo que me perca nesta cidade que ajudei a fincar os primeiros postes?
_ São ordens de Beatriz. Sabe como ela e severa. Não posso passar por cima de suas ordens. Procure me entender, senhor!
O certo é que não ouve qualquer tentativa de ataque contra mim. Como Beatriz soube antes de todos nós, que algo não estava bem, eu não sei. Sua desconfiança não salvou a vida da estrela maior. Pecou por isso. Lamento pela sua queda.
No aposento tentei dormir, meu corpo doía muito, sabendo que ficar deitado, forçando-o a um relaxamento muscular era pior, rodei pelo quarto, respirando fundo. Após um bom banho ás três horas da manhã, desci a escadaria e adentrei a uma sala onde outrora fazíamos nossas reuniões.
Ali estavam sendo organizadas as fotografias que seriam expostas nos dias seguintes. Passei um longo tempo a observá-las. Se não me falha a memória o arquivo continha a cerca de mil e quinhentas fotografias
* * *
Segunda parte. Década de sessenta.
Quando aquela moça magricela começou a andar entre os nossos homens, foi impossível não notar sua presença. Passeava entre os homens com suas perguntas irritantes: que planta é esta? Tem certeza que ela vai pegar?”
Desembaraçada, com uma saia tão curta para suas pernas longas, pouco se importava com os olhares masculinos para seus fundilhos. Sabendo da história, fui ter com o pai dela, um russo polacão, como era conhecido. Balançou a cabeça contrariado. “Ela não é normal, é um diabo em forma de gente”.Certo. Talvez seja desta época que o J cravou os olhos nela. E daí para frente, jamais se livrou dela, como tentou algumas vezes. Filha de pai rico desfilava em um Itamaraty pelo o acampamento, ria muito, mostrando seus dentes incrivelmente branco, outrora, gargalhava, forçosamente, sacudindo a cabeleira loira. O sorriso sumia, assim que notava minha presença. Era do saber de todos a antipatia que nutria pela minha pessoa. Mesmo agora, trinta e tantos anos depois, nada mudara.
Quando estava na casa dos vinte, estava tão bela, mais tão bela, que nenhum homem não a tenha olhado duas ou mais vezes em frações de segundos.
Sedutora, com seus olhos de promessas eternas, arrastara uma multidão de homens para seus pés, que depois, talvez desiludida com eles, soltava-os sem qualquer serventia. Isto era do saber de todos, e ela, pouco, muito pouco, se importava com o que diziam dela.
Quando desapareceu do vilarejo para terminar os estudos, o lugar entrou numa calmaria até então desconhecida pelos jovens sonhadores que a queriam como troféu de exibicionismo. Um ano mais tarde quando voltou, estava mais senhora de si. Continuava a rir muito, mas sem a gargalhada forçosa. Foi aí que encontrou J. Vilella, alto, magro, cabeludo, com seus dentes cavalares e sorriso cínico. Se foi amor à primeira vista para ela, não demostrou. Continuou flertando pelas redondezas. Quanto a ele, todo mundo ficou sabendo no primeiro porre. Cantou, dançou em cima de uma mesa, jurando-lhe amor eterno. Foi um reboliço. A esposa ao saber, pediu explicação. Encurralado, optou pela carne mais fresca.
Franscisca, sua esposa, jamais o perdoou.
Passada a época de altos e baixos, a vida continuou, depois da poeira assentada, para ambos, como num mar de rosas. Oito anos se passaram rapidamente. Dora ficava sumida a metade dos anos, fazendo teatro de corpo e alma. Nesta época, não era uma estrela ainda, mais brilhava. Até que Zelito Viana botou os olhos em cima dela. O resultado fora o estrondoso filme “A Deusa Nua”.Uma porta aberta para fama. Daí para frente contracenava com Stênio Garcia, Paulo Austran.
Em 1969, uma caravana de estrangeiros invadiu a cidade de B. lá estavam Francis Ford Cappola, barbudo, com óculos de armação larga, Sirley knight, em férias do filme, “Caminhos mal traçados”, do próprio Cappola. Podia então vê-los ali, todos reunidos, nas piscinas naturais, seminus como Deuses no paraíso, americanos, alemães, franceses, italianos e outras raças. Nas noites, as músicas tomavam contas das ruas e prédios vizinhos, onde ficavam. Passavam as noites regados de vinhos e bebidas importadas. A fama do paraíso em pleno oeste brasileiro traspassou fronteiras. Um ano depois, dois crimes bárbaro, colocou tudo por terra. Como num passe de mágica, como haviam chegados, desapareceram. Felizmente, o sonho já havia criado raízes. E tínhamos Dora Lopes.
* * *
As más línguas diziam que Andreia era uma magricela esperta. É bem verdade que seu pescoço fino, as mãos com os dedos exageradamente longos, davam-lhe esta farsa magreza. Os vestidos que usava, estavam sempre abaixo do joelho. O corpo, o essencial para alguns, estava sempre coberto. Uma tolice. Vezes por outra era vista tomando banho de trajes diminutos, e lá estavam as carnes em seus devidos lugares. Se não muito, também não faltavam em excesso. Acredito que Teodoro a amava muito. Não se importava com seu pescoço longo, nem suas mãos ossudas. Se alguém mencionasse o nome dela com ar de ironia, era considerado como um desafeto. Pediu-me uma opinião sob ela. Não dei. Quem era eu para dizer se fulano ou sicrano, não era merecedor de alguém? Falou de seu amor por ela. Um par de alianças! Iria mandar fazer um belo par de alianças com os nomes gravados, que ambos usariam trocados. Pobre Teodoro! Teria sido ele mesmo o assassino dos dois jovens norte-americanos? Seja como for, Andreia deve ter passado o diabo. Pelo ao menos foi o que demostrou durante um mês inteiro. Gritou, esperneou, e, o mais terrível: negou a alimentar-se. A crise passou rápida. Um quarentão de bolso fofo foi o pretendente seguinte. Era um bom sujeito. Pediu-a em casamento, fazendo lá sua declaração de amor. Aconselhada de que o amor chegaria na primeira noite que ambos dormissem pelados, aceitou o pedido de união. Se foi completamente feliz nunca soube.
* * *
Se era melhor lidar com um bando de cavalos selvagens, invés de homens, não tenho opinião própria. Teodoro estava sempre com esta frase na boca, quando estava irritado. Não era para menos. Tinha sob seu comando duzentos homens. Sorriso sempre fácil era um sujeito formidável. Mesmo com crise de humor, não deixava transparecer seu abalo íntimo. Seu único defeito, era a bebida descontrolada nos fins de semana. E ela o levou à queda, e junto com ela, arrastou junto J. Vilella. Era o homem de frente. Sem ele, jamais existiria a floresta verde que circunda a cidade. Falava a língua dos homens rudes, quase fanfarrão, bebia com eles, emprestava dinheiro sem pensar se haveria retorno no amanhã seguinte. Criticado por andar envolvido em brigas de butiquins, respondia com uma gargalhada. O assunto morria aí, neste ponto, sem mágoas. E assim foi por anos a fio. Foi quando certo dia o mundo desabou. Fora pego ensangüentado, bêbado ao lado de dois jovens estrangeiros, amigos de J e Dora. Lembro-me de seus olhos cravados em mim, espantados, por se ver abandonados atrás de uma grade. Seus gritos recearam pelos corredores. G! G! G!
Minhas éticas, meus princípios, ao ser mostrada minha covardia, valem tanto hoje como uma moeda falsa.
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O padre Benedito fora o homem mais inteligente que conheci naquela época. Podíamos ser inteligentes, mas ele era sábio. Saia bem em qualquer assunto. Falava de música, dava aula de literatura, sem desmerecer qualquer intelecto, falava de astronomia, arqueologia, e quando trouxe umas pedras negras para mostrar, garantiu que havia descoberto uma mina de diamantes. É claro que ninguém foi procurar.
Dono de uma grande cabeça era considerado meio louco, alimentado pelas manias de andar com a cabeça baixa, monologando consigo próprio. Era motivo de piada para os enguinorantes que não o entendia. Certa manha fez –me um estranho comentário, ao saber que Teodoro havia sido levado para uma prisão, condenado a vinte anos de reclusão. Maneou a cabeça, resmungando.
“A verdade às vezes esta por traz de coisas insignificantes. Quem iria acreditar?”.
Como pude ser tão burro por tantos anos? A autoconfiança, às vezes, pode ser de um grande atrapalho. Benedito sabia bem disso. Por isso manteve a boca fechada naquela época. Quando tentou me alertar, era tarde demais. Não se lembrava mais de quem se tratava.
* * *
Dora, que fazia muita questão em não manter qualquer diálogo comigo, tinha, por vezes, atos que me desconcertava. Fechava os olhos para estes atos desonestos que ela teimava em usar. Aparecia sorridente, aduladora, toda lã por fora, e por dentro a mesma de sempre. Neste caso aí, podia ficar de sobreaviso: estaria precisando de ajuda, algo que não podia fazer sozinha ou que J havia lhe negado.
_ mais este favor, G! Não posso fazer. Deixo com Você a missão!
_ Que se trata desta vez? Não se sente envergonhada?
_ O melhor jeito de mantermos no mesmo barco, é você pra lá e eu pra cá! Vou partir amanhã de manhã, não quero dizer para o J. diga para ele que não sei quando voltarei. Tenho muito trabalho pela frente. Sim?
Não havia como negar. Passou o resto do ano sem dar as caras. Sem mais os amigos estrangeiro, só e magoado, J passou a beber mais. Vezes por outra, buscava-o em algum bar. Estava embriagado. Pegava-o pelo ombro e o arrastava para fora. “Valeu a pena, irmão? Diga, Valeu a pena? Acha que valeu a pena?” Dizia magoado, arrastando as palavras. Quando o colocava no carro, passava a cantarolar Let me again, de Frank Sinatra. Isso no começo da década de setenta.
* * *
Nos meados de sessenta e oito, a cozinheira chefe apareceu com um garoto maltrapilho.
_ estava roubando comida. Ninguém o conhece por aqui. Esta falando que os pais o abandonaram. Esta há uma semana dormindo no barracão do padre Benedito. O padre ficou surpreso quando soube. Garante que não tenha o visto antes de hoje._ olhei o garoto sujo. Estava sem camisa. Usava um calção listrado e rasgado.
_ De onde você veio, filho.
_ Não sei de onde viemos. De vários lugares.
_ Onde estão seus pais? Porque o deixou aqui?
_ Não sei. Não sei para onde foram.
_ Se não der informação sob eles não vamos encontrá-los. Porque não nos diz quem são seus pais?
_ Não sei para onde foram. Quero ficar... Não quero ir.
_ Dê-lhe roupa limpa. Procure informar quem são seus pais e mande o ir. Não podemos ficar com crianças no acampamento._ disse para a cozinheira. Uma semana depois tornei vê-lo novamente. Andava pelas plantações com uma moringa de água nas costas.
_ Não encontrou seus pais?
_ Já disse. Foram embora. Estou bem aqui. Não vê que estou levando água para os homens lá em baixo?
Em um dia chamava João, no outro dia, José, e assim em cada dia usava um novo nome. Voltei a falar com ele novamente.
_ Porque esta trocando de nome todos os dias? Não gosta de seu nome? Esta escondendo alguma coisa?
_ Não gosto de meu nome. Sansão é muito feio. Gosto mais de João.
_ Esta bem. Será João por enquanto, ate sabermos seu verdadeiro nome.
Ordenei que o colocasse na escolinha para criança. Dias depois lá estava ele por entre os homens, suado, sem camisa e novamente com a moringa nas costas. Irritado com esta atitude, chamei-lhe a atenção.
_ Porque não esta estudando? Não lhe colocaram na escolinha?
_ Não gostam de mim. Estão rindo, me chamando de gigante. Não vou voltar lá.
Pude entender seu drama. Na verdade ele bem maior que as outras crianças de sua idade. Sabendo da sua teimosia, com tanto trabalho pela frente, pensei então que o melhor seria deixá-lo de lado. Antes, porém, dei-lhe uma nova tarefa, que não era tão pesada como andar com uma moringa de água nas costas. Seria a de levar os animas de trabalho para pastarem em lugares diferentes. Nos primeiros seis meses, não tornou a dar mais trabalho, até que um dia J me procurou.
_ Adotou um garoto?
_ Não seja tolo! Os pais o abandonaram. Que quer que eu faça?
_ Mande-o ir embora. Vai nos trazer problemas. Ela passa as noites com uma espingarda nas costas. Anda caçando.
_ Com uma arma? Onde conseguiu? _ estava espantado. Era expressamente proibida arma no acampamento. Sabendo do sério problema que poderia vir pela frente, esperei para tomar uma decisão mais acertada, embora não soubesse qual. Para minha surpresa, me entregou a arma dois dias depois.
_ Farei somente o me mandarem. Não me mande ir embora.
Diante desta imploração, deixei que ficasse. O resto do ano correu tranqüilamente, mas no primeiro mês do novo ano seguinte, quando achava que tudo estava indo muito bem, fui acordado às duas horas da manhã, futuro dia de segunda feira. Ao me deparar com ele, senti o poder das selvajarias. Tinha o rosto deformado por pancadas, por cima do corpo um estranho vestidão feminino. Tentou caminhar amparado pelas paredes, por fim, escorregou para o chão. Arrastei-o e coloquei sob uma cama.
_ Tire esta roupa. _ disse-lhe, sabendo o que viria a seguir. Suas costas estavam com sulcos profundas, feitas por fortes chibatadas.
_ Meu deus! Quem lhe fez isto?
_ Não sei... Quero ir embora... Quero dinheiro... Tenho que ir embora...
_ Quem lhe deu este roupão? É uma roupa feminina.
_ Dora... Eu estava em sua casa...
Fechei então os olhos para tal fato. Dois dias depois, desapareceu. Não tornei a vê-lo. Nem mesmo em meus pesadelos.
CAPÍTULO DOIS. SEGUNDA PARTE. Dias atuais.
Nos últimos trinta anos, a cidade mudara muito. Embora não tenha estado antes nela, sabia notícias sob ela. Mantinha contatos, vezes por outra com J. Nada mais daqueles tempos diziam respeitos a minha pessoa. As coisas agora eram dirigidas severamente, exigiam-se resultados, e explicações. Estou falando do Ame o Verde. Antes podia ter sido um sonho, hoje, a realidade em fotos coloridos, reportagens em revistas semanais, milhares de associados pelo mundo afora. Somente J Vilella, podia e tinha o nome sempre em tona. Não incluo aqui Dora Lopes, já que era e sempre fora a garota propaganda do A V. havia a história, é claro, nela podia saber como tudo havia começado. O bom mesmo era não ter que por os pés novamente aqui. Ainda não entendi o porquê de velar o corpo de J onde tudo começou. Podia ser em outro lugar qualquer. Trinta anos é muito tempo. Seria para prestigiar velhos conhecidos de outrora? Quantos deles ainda estavam vivos? Sabia do padre Benedito, Andreia e mais alguns. Ou seria para sensibilizar as pessoas de que preservar continuava sendo o melhor bem para humanidade? Seja qual for a intenção, o meu caso não e propaganda. Bom mesmo seria poder ter evitado o que veio a seguir.
* * *
Ter o controle sobre a ansiedade não é uma das tarefas mais fácil. Na minha idade nada mais é do que esperar, esperar e esperar. Esperar que de uma hora para outra tenha uma recaída fatal, que o coração canse de bater, que tenha uma pelamunia aguda, mesmo fechando as portas para ela. Aqui, neste ponto, torna-se difícil, com tanta fumaça de queimada clandestinas, feitas por pessoas irresponsáveis. Na rua era impossível respirar ar puro. Restava apenas esperar, olhar pela janela lá em baixo, os movimentos das pessoas, dos adolescentes que chegavam em ônibus, de todas as partes, dos policias, com as mãos cruzadas nas costas e olhos atentos, telefone encostado nas orelhas, gritos, correrias, abraços e beijos. Um mundo estranho e bonito a juventude.
* * *
- Tens visita, Senhor Gerônimo. A Sra. Andreia, dona do hotel arcos. Esta acompanhada pela filha caçula.
_ Qual é a sua opinião sob ela? _ perguntei por achar que minha guardiã poderia dar informações de Andreia recentemente. Como já afirmei, trinta anos são muito tempo. Nada sabia de Andreia madura.
_ Minha opinião? Ora, nenhuma! Sei que todo mundo sabe, que é bastante severa com seus empregados, mesmo estando o hotel nas mãos da filha mais nova. Tem uma rede de hotel pelo estado, e é viuva há muitos anos, vive mais na fazenda que nos hotéis.
_ Bem... Faça-a entrar.
Não havia jeito de não olhar para o pescoço de Andreia. Era o que mais se sobressaia de seu corpo. Os olhos também. Agora estavam menores, vivos, prescrustores, negros como dois caroços de feijão em cima de uma bandeja clara. Suas mãos continuavam magras e ossudas, trazia os dedos, finos e compridos, cobertos de anéis de todos os tipos de metais nobres. Com elas em repouso, fazia lembrar as terríveis garras de um gavião carcará, pronto para o ataque final. O pescoço, outra vez, estava coberto por uma gola alta de uma blusa de malha fria. Por cima desta, um colar de pérola em várias voltas dava seu toque final, ornamentado pelos cabelos ainda negros, escorridos pelas costas. Aquela era a verdadeira Andreia. Alta, magra e orgulhosa, jamais usaria uma jóia falsa. O rosto coberto por uma grossa camada de creme, que fazia desaparecer as rugas, fazia lembrar um rosto de cera, macabro, sem expressão. Era uma morta com dois olhos vivos, frios e irônicos.
Sua filha, ao seu lado, era o oposto. Cheirava a sexo, os neurônios explodiam pelo rosto, seios, e pernas. Bocejava muito e beirava a apatia. Estava sonolenta, por uma noite regada a sexo, seja lá com diabos quem. O nervo abalado fazia-a torcer as mãos com freqüências. Olhou me duas ou três vezes. Preocupou mais com a tarefa de limpar as unhas e ticatear as pernas nuas e belas. Era uma viva-morta.
_ O tempo tem sido cruel para conosco, heim? Mas não esta tão acabado assim. Que tens feito para manter a forma? _ disse Andreia, como se nos últimos trinta anos o tempo não tivesse passado para nós. Continuou a tagarelar, falando do passado, retirando lembranças dos labirintos por mim esquecidos. Como era de esperar, o assunto foi para o J. lembrou de suas bravura, como não podia deixar, de suas loucuras também.
_ Pobre J! Porque estão fazendo isso com ele? Acha que foi idéia dele soltar seu último suspiro aqui? Claro que não! A coisa ficou internacional! Não notou como a cidade esta limpa? Pintaram até os postes, que jamais sentiram cheiros de tintas! Quantas pessoas! Não posso reclamar. Estamos superlotados! Temos vários sujeitos graduados e de gravatas, bolsos cheios e muita pouca vergonha. Sabe como é. Onde a televisão esta... Lá estão eles, prontos, de cabelos grudados na cabeça cheia, cheia de idéias fantásticas pra mudar o mundo! Só falta combinar com os eleitores. É por isso que as tevês os atraem tanto! São como carniça fresquinha para urubus! Pena que junto com eles venha também gente sem escrúpulos! Isto toca à sua segurança! Porque esta tão bem guardada?
_ Talvez estejam com medo de que seja seqüestrado.
_ Não esta falando sério!
_ Não sei. Tentei me informar. Dizem que são ordens lá de cima. Cá entre nós, não esparrames, estão achando que estou caduco e posso me perder pela cidade...
_ Não! Não! Você esta brincando! Caduco? _ disse ela com uma gargalhada alegre._ Não! Eles estão certo, G! Você parou no tempo! Não sabe como este lugar esta cheio de pessoas más intencionadas! Veja minha filha aqui! Meteu-se em ema enrascada! Tenho tentado ensina-la, ser mais discreta em suas escapadas! Não somos como pessoas pobres que nada tem a perder, com certos falatórios. Temos um nome para zelar! Agora é tarde! O chantagista pediu dez mil reais! Imagine!
_ Mamãe! Não esta sendo correta! Entenda minha posição!
_ Ora, filha! G é como o irmão mais velho que nunca tive! Um velho camarada! Que me diz, G? Não acha que dez mil é muito dinheiro?
_ Deve-se pensar no escândalo. Ela é...
_ Casadíssima! Não pode imaginar o que seria se o velho pão duro do sogro dela saber! Exigiria o divorcio imediatamente! Isso seria a repartida dos bens! Eles tem certas quantias em ações na empresa. Ainda tenho duas opções. Ou pago e corro o risco de ficar nas mãos do chantagista, ou apelo para uma decisão drástica. _ Andreia fez uma careta. Suas mãos se fecharam como se pegasse algo invisível no ar. Suas unhas grandes e pintadas de uma cor estranha fez-me novamente lembrar o terrível bico do predador. Levei um pequeno susto. Para me recuperar, recorri à falta de educação, curvando-me para arrumar a amarradilho do cardaço de meu sapato, tão bem feito em forma de borboleta. Andreia tagarelou mais um pouco e se despediu. Foi a última vez que estive com ela.
* * *
Acredito que Assis, o sargento que rondava o quarteirão com seus homens tenha ficado cm certa pena, a me ver sempre ali na janela, olhando para a cidade enfumaçada.
_ Vamos dar uma voltinha à manhã cedo? Não acho que seja muito bom ficar aí trancado o dia todo, recebendo visitas e mais visitas.
_ Na verdade, não é nada agradável. E quanto à Bárbara? Ela é bastante fiel para com as ordens superior.
_ Deixe ela comigo. Falarei com ela esta noite. Não quer nos dizer a razão de deixá-lo trancado. Talvez tenham recebidos alguma ameaça. Sempre tem alguém querendo estragar as festas dos outros. O caso aqui não é diferente. O que temos na verdade, são alguns crimes comuns, causados por bebedeiras, divergências comuns. Até agora não tivemos nem um trabalho. A não ser um pobre homem que ontem a noite deu algumas voltas pela quadra. Parecia um tanto bêbado. Nada sério.
Na manhã do dia seguinte, antes do sol começar sua luta contra as fumaças, sairmos para o que seria uma breve caminhada. Pobre Assis! Tentou de alguma maneira evitar que minha caminhada não se tornasse tão marcante com um estranho acontecimento, que mudaria o rumo dos meus pensamentos, até então incrédulos para um futuro pessimista em torno de minha pessoa e as outras, de uma forma geral, ligada ao A V.
Uma pequena mulher de olhos furiosos, um jovem de joelhos e algemados, e uma cena grotesca: um cadáver degolado. Sem dúvida não era a melhor maneira de começar um dia. Não havia mais como não participar do fato. Dois policias fardados estavam ao lado do jovem algemado, mais para um lado, uma pequena mulher de cara enfezada, tentava parecer neutra, sem se afastar. Ao lado do corpo decapitado, três homens a paisana estavam debruçados sob ele, fazendo o que seria uma perícia minuciosa. Um dos policiais militar fez um aceno.
_ Sargento, olhe quem esta aqui._ Assis olhou para o jovem que permaneceu de cabeça baixa. _ que ele aprontou desta vez?
_ Roubou minhas galinhas! Esta é a terceira vez esta semana! Tem que dar um jeito nele! _ Disse a pequena mulher.
_ O delegado vai cuidar disso, minha senhora. Nosso trabalho é proteção. Depois do fato acontecido, aquele homem que esta ali, fará a ocorrência. Depois ira para as mãos do jurados e daí...
_ E Daí será posto em liberdade! Não sou tão burra como o Senhor pensa, Sargento! Não quero que leve ele sem antes pagar pelas minhas galinhas! Depois de preso, quem ira pagar por elas? _ Assis deu de ombro. Aproximou do corpo sem vida.
_ Meu Deus! Quem diabos teria feito isto?
_ Sei lá, sargento. Alguém com força o suficiente para separar a cabeça do corpo com uma só pancada. Ainda não dar para saber que tipo de arma foi usada. Talvez um facão pesado, uma machadinha de carpinteiro, coisa assim. _ Comentou o delegado. _ teremos que tira-lo daqui, antes que chegue algum jornalista curioso. Teremos que levar o caso em banho Maria, sargento. Sabe o que estou querendo dizer: nestes dias de festa para a cidade, a ordem é que todas as celas permaneçam vazias. Seja quem for este pobre idiota, terá que esperar que enterre o velho J primeiro, para que o caso venha a torna. Enquanto isto trabalharemos em silêncio. Veremos se alguém sentira a falta deste infeliz. Não porta qualquer tipo de documento que o identifique. Não parece que seja daqui. Suas roupas são de grife. Talvez um turista, para o nosso azar. Parece que pegaram o aquele cretino novamente.
_ Roubo de galinhas. _ Disse Assis.
_ Onde o pegaram?
_ Na festa de aniversário de sua namorada. Esta senhora nos levou até ela. _ Disse um policial levantando o jovem larápio.
_ Tem dinheiro, rapaz? Pague as galinhas. Dê o dinheiro para esta senhora. Pode dar o seu preço, dona. _ Ela mencionou certa quantia. O policial tirou-lhe as algemas, e este tirou o dinheiro e deu para a pequena mulher. O delegado deu-lhe um sopapo._ Fora! _ Gritou_ esta é a ultima vez, heim?
Assis puxou-me pelo cotovelo. A cena poderia ter sido engraçada, se não fosse pelo cadáver, ali, de bruços, com o rosto para cima, a poucos centímetros do corpo. Mesmo para minha profissão, a cena fora brutal, grotesca e sem sentido. Não fora atoa, que jamais a exerci profissionalmente.
* * *
Antes tarde que nunca, para sabermos e tentar corrigir uma opinião errônea, malvada, e com certo sabor de narcista. Alice era a única pessoa que queria encontrá-la naqueles dias. Sem uma opinião própria, era usada na adolescência pela colegas mais espertas. Bastava ouvir uma conversa interessante para usá-la como se fosse de sua autoria quem não a conhecia, podia sentir –se magoado, achando que a opinião era imprópria para o momento. Filha mais nova de J, era uma matraca falante, que fazia lembrar um papagaio doméstico. No meu caso, eu a adorava. Mais que causava certa irritação, sua conversa infantil, sem maldade, causava. Gostava de a ouvir nas tardes passadas, quando ela era uma criança peralta, de cabelos loiros caracolados, que fazia o diabo para não pentea-lo. Pena que o tempo mudara para ambos. Trazia um neto pelas mãos. Como era de se esperar por parte dela, reclamou do lugar, do aposento, da falta de claridade do local, da fadiga que estava sentindo no momento.
_ Como esta agüentando tudo isso, tio? Não se importa com a barulheira infernal que os jovens estão fazendo lá embaixo?
_ Não. Com a velhice veio junto a compreensão.
_ Deus me livre! Porque não foi para outro lugar mais sossegado? Estou com Dora em sua casa. A coitada tem chorado muito.
_ É a última pessoa que poderia supor que estivesse ao seu lado.
_ Mamãe esta morta. Porque iria odiar alguém que um dia amou Papai? Ela não é assim tão má. Suponhamos que se eu fosse ela, teria que dizer não para um homem algum dia. É por isto que a detesta tanto?
_ Você esta mal informada. Já não é mais aquela criancinha de outrora. É melhor que repense sob estas palavras, e da sinceridade da pessoa que lhe disse tal bobagem.
_ Não... Não se zangue, tio! Não me referia ao Senhor.Mas sim daquele homem que era amigo seu... Aquele que matou aquele dois estrangeiro naqueles tempos...
_ Teodoro, Alice. Teodoro.
_ Sim... Sim... Este mesmo. O Senhor sabe que ele os matou por ciúmes de Dora? Que ele os viu juntos tomando banhos, e os matou?
_ Não. Não sabia. Como soube desta história?
_ Dora me contou. Pobre Dora! Fico imaginando o diabo que ela passou no meio daqueles ignorantes que eram os homens de papai! Pobre papai! Aquele homem o destruiu! Se não fosse por ele, talvez papai tivesse recebido o prêmio Nobel! _ Tagarelou mais um pouco.
Talvez ele tivesse sonhado com algum prêmio. O seu maior sonho era que os protetores da natureza crescesse dia a dia. Isso ele viu com vida. Sabia muito bem que não poderia mudar uma geração de uma noite para o dia, e que uma semente plantada e regada com amor poderia dar bons frutos. O prêmio seria apenas mais um detalhe na vida de um gigante.
* * *
_ O padre Benedito, Senhor Gerônimo.
_ Esta acompanhado?
_ Não. Esta só.
Deveras o padre era feito do puro cerne. Naqueles velhos tempos ele era o mais velho de todos. Deveria ter sessenta e tantos. Agora beirava aos cem.
Adentrou curvado, apoiado por uma bengala de apoio, com passos curtos e rastejantes. Bárbara ajudou-o a se acomodar no sofá.
_ Como é terrível a velhice, heim, Gerônimo? Parece-me que ainda não sentiu todo seu peso. Agüente firme! Para isso estou aqui. Para prolongar seus dias na face da terra! Não vou perguntar por que esta aqui. Tem todo o direito de dar o último adeus a seu irmão. Embora isso me pareça um tanto infantil, já que nesta idade é impossível não pensar na última viagem. Não estava em meus planos, voltar a esta cidadezinha de uma torre só. Resolvi isto dois dias atrás, quando ouvi uma conversa entre um ajudante e a cozinheira. O rapaz é descendente de uma velha família desta cidade. Esteve por aqui estes dias atrás. Como pensam que estou surdo, falam da largura que a boca permite, sem rodeios.
_ Contava à cozinheira que presenciara algo horroroso. Vira um homem degolado por completo. Isso nada dizia à minha pessoa, se ele não tivesse mencionado que lá estava, ao lado de um sargento, um velho de um nariz tão grande como nunca vira na vida. Quem seria a não ser você?
_ Sim. Acertou. Sairmos para dar um caminhada, quando deparamos com a cena. Uma coisa grotesca. Parece que foi decapitado ou coisa assim.
_ E isso não lhe diz nada? Ele acordou!
_ Não lhe estou entendo, Benedito.
_ Não? Não se lembra daqueles dois crimes que chocou a população naquela época? Jamais engoli a história que fora o pobre Teodoro que os mataram! Talvez minha imaginação esteja em decadência, e que também esteja vendo chifres em cabeça de cavalos, mas ouça:
_ Antes de deixar esta cidade, anos atrás, não me recordo à data exata do ocorrido, me ocorreu um estranho encontro com um homem. Estava passando por uma rua, não me lembro qual, quando o estranho me pediu fósforo. Atendi-o, despercebido. Ao me devolver o fósforo, disse: “obrigado, padre Benedito”. Levantei os olhos para ele e tive uma estranha sensação de tê-lo conhecido em outros tempos. Deixei o caso de lado, já que não consegui recorda-lo. Mais seu olhar frio, permaneceu cravado em minha mente. Então aconteceu! Alguns meses depois, reconheci a quem pertencia aquele olhar! O garoto! Aquele garoto espancado, não sei por quem! Você lembra dele. Sei que lembra.
_ Sim. Os pais deixaram ele para trás. Dizia chamar-se Sansão. Lembro que não gostava do nome. Inventava nomes, como José, João, etc. isto não quer dizer que seja ela o assassino.
_ Acontece que sei de mais coisas. Certa vez uma de minhas fiéis fez-me estranhas confissões, lamentava seus erros do passado, e que se pudesse voltar no tempo, seria para corrigir um grande erro_ o padre deu um pequeno tossido e parou por um instante. Depois continuou com a voz um pouco trêmula.
_ Lamento, mais nada posso dizer. Deixe que os mortos enterrem seus mortos! Vá embora! Vá enquanto pode! Nada mais prende você a este lugar! O J já esta morto e nada mais resta fazer, a não ser rezar pele sua alma! Não alimente o desejo deste assassino de matar! Ele esta ansioso! Permaneceu por anos adormecido! Voltou a despertar com todo este barulho em torno do nome de J Vilella! Vá. Leve junto Dora Lopes!
J, Wilson, e eu éramos os três filhos adotivos do naturalista alemão Rodolf. Foi nas gélidas universidades européias que nossas amizades consolidaram. Por isso éramos considerados irmãos. Devo dizer que não levei a sério o padre, mas que o desejo de deixar o lugar, começou naquela noite. Foi quando recebi a notícia de que o corpo de J chegaria naquela mesma noite, restava então, fazer as malas. O dia seguinte foi cansativo. Detalhes do enterro do J, pode encontrar nas paginas dos jornais daquele dia.
* * *
No dia seguinte, após o enterro de J, a cidadela trazia uma aparência de morte. Era 13 de outubro. O sol continuou vermelho das dez da manhã até seu último suspiro, ao escurecer. As ruas ficaram desertas, vez por outras, podia ouvir gritos de crianças ao longe. A cidade voltara ao seu rítimo normal. Uma fileira de ônibus e carros comuns, deixara a cidade na madrugada, numa barulheira infernal, sob gritos dos adolescentes.
Lá fora, uma faixa solitária, pairava, quieta, sem uma leve brisa para balanceai-la, transmitia sua mensagem num grito mudo: SALVE O PLANETA AZUL PROTEGENDO NOSSO VERDE!
Acabara. Poderia ter ido embora muito antes do amanhecer, voltar para o meu sossego, tentar recuperar as energias gastas nos últimos dias. Mais não. Na madrugada, ouvi os passos de Bárbara pelos corredores. Podia sentir que estava pronta, mala arrumada, segura se si, consciente da sua missão cumprida. Permaneci deitado. Para que pressa, agora que tudo estava calmo? A conversa que tivera com Benedito, vagamente vinha à minha memória, esquecida pela confiança exagerada, pelo conforto do silêncio, adoçada pela paz momentânea e preguiçosa. Quando sai da mormata, encontrei Bárbara junto com Assis. Ele estava cabisbaixo, e ela de olhos vermelhos.
_ Estão prontos?
_ Ela esta pronta. Eu ficarei. Acho que para uns dois dias ainda. Disse Assis.
_ Conte para ele _ Disse Bárbara. _ Conte para ele.
_ O que há de errado? _ soube, então, que já não iria naquele dia. A notícia de que Teodoro estava na cidade, me pegara de surpresa. Não seria justo partir sem ter qualquer contato com ele. Assis lamentou a desinformação do policial que o atendera.
_ Ele apenas cumpriu as ordens que passei: nada de estranhos, depois das dez da noite. Em todo caso, o Senhor pode encontrá-lo no hotel.
Era mesmo Teodoro. Não era de o seu feitio guardar rancor. O fato de ele ir procurar Andreia, seu antigo amor, provava isso.
_ Irei procurá-lo. Trarei-o aqui. São apenas seis horas da manhã, talvez ainda esteja dormindo. _ disse Assis.
Mas contrariando todo o nosso plano, ele voltou uma hora mais tarde, carrancudo e abalado.
_ Parece que o diabo esta solto. _ comentou com um profundo suspiro._ Andreia esta morta! Assassinada! Enfiaram um saco plástico em sua cabeça. Meu deus!
Lembrei-me do padre Benedito. Comentei com ambos a conversa que tive com ele.
_ Sansão? Só isto? Um nome que nada diz. Um homem sem rosto. Talvez o padre possa nos ajudar. Não acredito que o delegado ira leva-lo a sério. Sem querer ofendê-lo, Sr, Gerônimo, mas o padre esta muito velho. Pode ser que o encontro tenha ocorrido. E daí? Não se pode dizer que um homem é um criminoso, só por causa de seu olhar opaco. Mesmo sabendo que o padre tenha uma forte intuição. Tenho outra hipótese. Teodoro! Acho que seria bom falar com o delegado.
_ Não. Eu não irei. Uma vez para mim foi o suficiente. Não posso vê-lo outra vez por traz de uma grade. E ainda não tenho nem a certeza que foi realmente o culpado. Tenho que encontra-lo. Preciso encontrá-lo antes do delegado. _ Comentei decidido. As palavras do padre falava mais alto. Se deixasse a cidade agora, perderia a última chance de corrigir um erro do passado.
_ O melhor caminho, ainda é o delegado. Sabendo de quem se trata, levara o caso com mais respeito. Seria bom ouvi-lo. _ Teimou Assis._ Concordei. Fomos então ter com ele. Tive então uma outra surpresa. O velho delegado havia trabalhado rápido. Em apenas três horas, já sabia tudo sobre Teodoro. Coçou o queixo pensativo, parecia um tanto embaraçado. Lamentou que o suspeito fosse uma pessoa conhecida.
_ Parece que esta desequilibrado mentalmente. Isto é comum numa pessoa que passou muito tempo em uma prisão. Todas as provas recolhidas, indica ele. Veja este bilhete, passado para nós pele filha de dona Andreia. “Temos que nos encontrar, sua vida corre perigo T. O T, seria a inicial de seu primeiro nome. Teodoro. Pelo que contou sua filha, ela foi procurada por ele dois dias antes, queria dinheiro. Pelo que fiquei sabendo, ambos tiveram um passado amoroso. Com certeza sentiu que poderia ser ajudado. Ela deu-lhe algum dinheiro. Depois ela não quis mais saber de conversa. Contou à filha que andava com medo. Muito medo mesmo, salientou a filha. Confesso que não estou convicto de sua culpa. Como um homem se sessenta e tantos anos pode fazer isto? Por isso, só podemos deduzir que ele não esteja muito bem da cabeça. Não podemos, também, esquecer de seu passado. Um assassino é sempre um assassino. Era muito seu amigo?”.
_ Sim. Foi um grande amigo.
_ Que estranho! Porque será que não o procurou?
_ Ele tentou. Ouve uma desinformação. Foi nesta noite passada.
_ Compreendo. Uma pena, talvez pudesse ser tudo diferente. Vamos fazer o possível para resolver o caso sem violência. Se puder nos ajudar, dando endereço dos velhos amigos...
_ Sinto muito. Não consigo, no momento, lembrar alguém. Mais farei o que puder._ Disse. Na verdade, não estava em meu planos dar qualquer tipo de ajuda. Se, naquele instante, soubesse onde estaria ele, eu seria o primeiro e vê-lo.
* * *
Decidi, Então, que ficaria mais tempos na cidade. No meio da tarde, tive outra conversa com Assis.
_ Nosso delegado anda nervoso. O secretário de justiça, teve a gentileza, entre aspas, de telefonar para ele perguntando se precisava de ajuda. Negou veemente. Tem duas batatas quentes nas mãos. Sabe quem era o degolado? Um terrível de um trambiqueiro, falsário, estalionátario, etc. a morte de Andreia, ganhou prioridade. Veja mais o que descobriram: um pobre de um mendigo pediu comida para a velha hoteleira, esta o mandou ir trabalhar. Irritado com a mesquinhez da velha senhora, fez-lhe algumas ameaças verbais. Não acredito que ele vá levar este fato a sério. Dona Andreia, era pontual para ir pra cama. Segundo a filha, deitava as dez em ponto. O médico garante que ela foi morta entre as três para quatro horas da manhã. O que faria ela em seu escritório a estas horas? Teria ela um encontro com o assassino?
_ O que me diz do chantagista da filha?
_ Seria possível? O Senhor acha que ela seria capaz de cumprir a ameaça, levando-a ao extremo? Talvez exista aí, uma pista. Suponhamos que ela não quis pagar o preço exigido pelo chantagista. O que ela faria? O que faria o Sr, em uma atual situação?
_ Uma das opções seria contratar alguém que colocasse um ponto final na história. Não seria pelo preço exigido. No caso dela, estava em jogo a sociedade com o sogro da filha. Pago a primeira vez, existiria o medo da segunda, e mais outras. Não correria o risco.
_ Certo. É isto mesmo. Suponhamos que ela apelou para ao extremo. Contratou alguém para resolver o problema. Um assassino. Ele vai, faz o serviço, volta, que o dinheiro combinado, ou talvez mais, ela nega a dar. O assassino a mata também.
_ Uma boa dedução. Mais cadê o chantagista?
_ Poderia ser o degolado. Meu Deus! Taí a chave do mistério! Porque não? Heim? Porque não? Vamos fazer uma investigação paralela a do delegado. Depois contaremos a ele nossas descobertas.
* * *
Assis determinou que deveríamos começar pelo jovem ladrão de galinhas, a procura do suposto assassino, contratado para matar o também suposto chantagista, morto com uma arma que poderia ter sido um grande facão, ou mesmo uma machadinha usada por carpinteiros.
Na suposição, o jovem ladrão que passara a noite atrás das galinhas, poderia ter visto alguém suspeito, no caso, o próprio assassino.
Tivemos um rápido encontro com sua mãe. Estava bastante agressiva. Recebeu-nos com pedras nas mãos. Lançou-nos um olhar de desconfiança e desdém.
_ O que é desta vez, Sargento? Quem é este senhor? Se veio prender meu filho, perdeu seu tempo.
_ Não. Não viemos prendê-lo. Na verdade, o que queremos é sua ajuda.
_ Não brinca, sargento. Onde esta sua pose de maioral engomado?
_ A Senhora Esta vendo alguma diversão em nossos rostos?
_ Esta bem, Sargento. Esta desaparecido desde dia em que vocês o pegaram. Soube do caso pelos outros. Tenho quase certeza que ele tenha fugido com uma putinha que é sua namorada. Ela nunca prestou! Cedo ou tarde, ela iria fazer sua cabeça! Vagabunda! Vou dar na cara dele quando ele por os pés aqui novamente!
_ Poderia dar-nos o endereço dela e o seu nome?
_ Aline. Mora ao lado do bar do chicão. _ ela apontou o rumo do sul. _ dê-lhe alguns conselhos, sargento! _ Pediu ela. Seus olhos ficaram de um vermelho lagrimejentes.
_ Farei isto. É só encontra-lo.
Não foi difícil encontrar a moça, de belos olhos, indolente e pernas de fora. Do namorado nada sabia. Havia desaparecido
_ Na última vez que o vi, foi em meu aniversario. Se encontra-lo, sargento, diga que estou esperando-o.
_Darei seu recado, moça. Adeus!
_ Onde diabos se enfiou este rapaz? _ Comentou Assis irritado.
_ Talvez tenha ido embora.
_ E deixado uma bela garota daquela? Não. Não pode ser. Vamos ver aquela mulher pequena e brava, dona das galinhas. A pequena mulher nos recebeu muito bem. Estava mais calma e não trazia no rosto aquele olhar tão furioso daquele primeiro encontro.
_ Precisamos de vossa ajuda, minha senhora. _ Disse Assis, bajulador._ gostaríamos de saber se a Sra. tenha visto alguém na manhã daquele dia terrível.
_ Estão a caça do homem que matou aquele sujeito lá embaixo, heim?
_ Sim. Estamos a sua procura.
_ Bem... Acho que vi sim... Mas não é o que os senhores estão procurando. _ Disse ela com os olhos sonhadores.
_ Como sabe se não é o que estamos procurando?
_ O que eu encontrei não parecia ser um bandido. Era bem diferente.
_ Pode nos dizer que tipo era, este que a senhora encontrou?
_ Bem... Era um belo homem... Ao passar por mim, curvou-se, gentilmente, pareceu-me que naquele instante, sorriu também. Ainda estava escuro. Não pude ver direito, mesmo assim pude ver seu belo bigode bem feito. Alto e forte com aquela capa escura então...
_ Capa escura? Não temos o costume de usar capa nesta época do ano! Não poderia ser outra coisa? _ indagou Assis agitando os braços, tentando dar uma outra idéia que não fosse a tal capa.
_ Uma capa escura. Tenho certeza. Voltei o rosto para olhá-lo novamente, mas ele não se voltou mais. Fique por instante vendo-o afastar com passos largos. Era como um Deus. Sabe como é. Tenho-os visto sempre.
_ Hã é? E onde a senhora os encontra sempre?
_ Nas novelas. Onde mais?
_ Claro, claro. Como sou tolo! É verdade. Bem... Foi muito bom conversar com a senhora. Obrigado!
Deixamos a pequena mulher sonhadora. Assis me olhou irônico.
_ Viu só? Nós tentando resolver os problemas da humanidade e ela sonhando com galãs de novelas! Mais esta agora da capa! Talvez ele tenha-a usado para esconder a arma do crime. Ou para proteção de suas roupas. Resumindo em poucas palavras, vestido próprio para matar! Vamos contar ao delegado. Veremos o que ele irá nos dizer.
Mas o delegado nos olhou com certo cetismo
_ Não sei se devemos levá-la a sério. Parece que procura um príncipe em todo sapo que encontra na rua. A solidão é algo sério. É muito difícil chegar em casa a noitinha e não ter para quem contar que quase foi atropelado por um idiota qualquer na rua! Mas vamos ao que interessa. Na nossa profissão temos que trabalhar com todas as hipótese, mesmo aquelas que podem ser descartadas logo na primeira vista.
_ Suponhamos que dona Andreia seja a mandante do crime. Que aconteceu então? Recebe a ameaça do chantagista. Desconfiada que ele continuará a pedir dinheiro, mais e mais, resolve por um ponto final na história. Aí então aparece sua salvação! Um grande amor do passado, que não lhe negará o pedido de socorro. Ela esta desesperada. Ele não esta es situação melhor. É um ex-prisidiário, sem saída. Aceita o pedido, seja lá qual foi a proposta dela. Mata o chantagista. Volta para acertar a conta e ela nega a pagar o combinado. Ele não quer mais vê-lo. Ele então mando-lhe o bilhete ameaçador. Amedrontada, ela o recebe na madrugada e a mata! Pode ser. Mas porque a matou com um saco plástico, enfiando-o na cabeça dela? Porque não usou uma faca? Uma pancada forte na cabeça? Não houve uma luta corporal. Conversaram tranqüilamente, até a ponto de deixá-lo a se aproximar por traz. O assassino tomou a decisão de matá-la, na hora! Não foi um crime premeditado! Não. Não faz sentido! Ele não teria força suficiente para degolar um homem que estivesse em pé na sua frente. Teodoro matou-a; somente ela! São dois casos diferentes. Minha opinião é que ela o recebeu por piedade. Talvez, envolvida com um clima de saudosismo, tenha o deixado a se aproximar por traz. Talvez esperasse um carinho, um beijo, não a morte por afixiamento. Só nos resta pega-lo. Aí descobriremos o resto. Pegaremos ele vivo! Confiem em mim.
Assim que o deixamos, Assis comentou irritado:
_ Que cabeça dura! Esta correndo contra o tempo. Sabe que isto não é bom para ele. Lamento lhe informar, que isso é bastante comum nas policias. A população exige rapidez nas investigações de crimes famosos como o deste caso. Sem saídas, enfiam o primeiro suspeito atrás das grades, para prosseguir com as investigações, mais tranqüilamente. Infelizmente usam estes truques sujos. Vamos esperar para ver. Veremos o que podemos fazer amanhã. É melhor não deixarmos a Srta. Bárbara descontente. É um veneno doce aquela mulher! Nada como uma boa noite de sono para colocar as idéias no seu devido lugar. Disse alguém. _ concordei, sem saber naquele instante, que aquela seria a pior noite vivida por mim.
* * *
Acordei sob gritos e pancadas. Alguém tentava a todo custo por a porta a baixo. Gritos femininos chamavam pelo meu nome em desesperos. Uma pedrada certeira espatifou o vidro da janela provocando um barulho assustador Pensei tratar-se de um terrível pesadelo. Mais não. Estava bem acordado. Arrastei me até a janela. Uma pequena multidão gritavam lá embaixo. Vi Bárbara me acenando um pano branco, fazendo-me sinais para descesse. A porta fora aberta com um último chute e alguém me arrastou rumo à escadaria. Um cheiro forte de fumaça tomou conta de minhas narinas, fazendo em meus olhos um ardume de choro. Compreendi o que estava acontecendo. Fogo! Um incêndio em algum lugar qualquer.
_ Temos que sair daqui! A floresta esta em chamas! Não podemos ficar um minuto amais, senão morreremos todos afixados! _ disse-me, a Jovem Bárbara.
Deixei-me levar por entre mulheres e crianças, que como eu negava-se a acreditar no que estava acontecendo. Passavam poucos minutos da meia noite, e as horas que vieram a seguir, foram as mais longas e angustiantes de todas as vividas. Quando o dia chegou, podia se ver uma grande fumaça que cobria todo o vale. Quando os primeiros homens chegaram, sujos e suados, pude então ver a vitória em seu rostos cobertos pelo carvão. Sentado no chão, coloquei o rosto entre as pernas, olhando para meus pés nus. Uma terrível confusão mental ameaçou-me por instantes. Que eu estava fazendo ali? Lembrei-me de Benedito. Procurei assustado, por todos os rostos sujos, o de Assis. Encontrei o de minha guardiã, sereno, olhos apertados e decididos.
_ Vamos, Sr. Gerônimo. Vamos encontrar Assis.
* * *
_ Acabou, Seu Gerônimo, acabou! Foi o espetáculo mais grosseiro e horrível que vivi em toda minha vida! Jamais poderia imaginar uma cena tão grotesca! No fundo as chamas se aproximando rapidamente, e o corpo balançando como um grande boneco de pano! Tinha uma fina corda de nylon em volta do pescoço. Foi fatal! Havia um pequeno tronco por onde, provavelmente subiu. As mãos estavam soltas, mas se quisesse se libertar, seria impossível. Foi um baque e tanto! O nosso delegado deu uma pequena entrevista ao amanhecer. Pela sua dedução, Teodoro colocou fogo no mato e se suicidou em seguida. _ disse Assis.
_ Isto faz sentido?
_ Era um homem isolado, desacreditado. Isto torna qualquer ser humano sem qualquer lampejo de esperança. A mente fica em alerta geral. Tudo e todos passam a ser seu inimigo. É o começo da esquizofrenia. Mesmo assim, não há justificativa para o que fez. Porque tanto ódio? Soa mais como uma cruel vingança. Uma vingança contra todos que o abandonaram no passado! Não pode haver outra explicação. Devemos acreditar nas palavras do delegado.
_ Não. Não acredito nisso. Ainda acho que o padre esta com a razão.
_ O Sr deve relaxar. Acho que as coisas chegaram a um final. Ao meio poderá fazer uma visita ao cadáver. É um convite do delegado. Quer ter certeza de que se trata mesmo dele.
Era ele mesmo. Rosto magro e ossudo, nada fazia lembrar o homem jovem de outrora. Toquei-lhe às mãos. Trazia no dedo um velho anel prateado, gasto pelos anos.
“Não sabes que dia é hoje, G?”.
“Não. Não me lembro!”.
“Treze de setembro!”.
“Meu Deus! Esqueci-me, completamente! Nem um presente sequer para o seu aniversário, Teodoro! Fique com este anel! É de todo coração!”.
“Obrigado, G! Que fará quando tudo isto acabar? Irá voltar para suas terras?”.
“Sim. Tenho pensado bastante nisso. Vem comigo?”.
“Sim. Gostaria muito que me levasse junto. Eu e Andreia. Seria seu capataz!”.
“Claro, Teodoro. Faremos isso!”.
“Você e um camarada formidável, G! Sinto-me muito bem ao seu lado. Espero que seja assim para sempre!”.
Para sempre! Era este o seu desejo. Ouvi passos e o delegado estava atras de mim.
_ É ele mesmo?
_ Sim. Ele mesmo. Quero que lhe dêem um bom enterro. Mande-o para minhas terras.
_ Como?
_ Mande levar o corpo para minhas terras. Será enterrado lá.
* * *
_ Ouve um enterro hoje, Gerônimo._ Disse Assis cabisbaixo.
_Não entendi, Assis. Quem era?
_ O nosso jovem ladrão de galinhas! Encontraram-no degolado em um matagal, a um cinco quilômetros da cidade. Estava em um estado horrível. Foi decapitado! Sabe o que isto significa?
_ Que as coisas não estão certas. Não entendo mais nada.
_ Ouça que tenho para falar. O velho Teodoro não tinha condições de matar ninguém. Hoje a tarde, encontrei um casal de sitiantes. Mora a um duzentos quilômetros daqui. Disseram que Teodoro apareceu por lá um vinte anos atrás. Estava tuberculoso no época. Ajudaram-no. Ele permaneceu por lá até o mês passado, quando anunciou de surpresa, que viria rever velhos amigos. O pior de tudo é que estava quase paralisado de um lado. Tivera um grave começo de um derrame cerebral. Isso o fazia andar mancando. O delegado não quer conversa. Considera o caso encerrado. Mais ficam várias perguntas no ar. O caso de Andreia não tem ligação com os outros crimes? Como Teodoro conseguiu colocar fogo em vários pontos da mata em tão pouco tempo e ainda se suicidar a uma distância tão grande do fogo, se mal conseguia andar direito? Se tudo isso foi culpa de um só homem, foi uma grande jogada. Vamos continuar com a nossa teoria. Estive martelado o meu cérebro. Veja ao ponto em que cheguei: continuo pensando que o ponto de partida é na dona Andreia. E mais. O assassino não estava pensando em matá-la, até que ele viu Teodoro. Bolou então a grande jogada. Matou ela. Depois incendiou a mata e antes dependurou o pobre coitado. Por quê? Uma vingança! Ele sabia do passado dele, sabia que ele era um ex-presidiaro. Sabia que ambos tiveram um passado romântico e que a culpa cairia em cima dele. Como o delegado esta acreditando. Mais quem é ele?
_ Benedito tinha razão. Sansão! João ou José, seja lá qual o seu nome verdadeiro. Meu Deus! Que irá acontecer agora?
_ Pela lógica, dará o fora. Saiu tudo como ele planejou. Se for esperto, deve estar bastante longe, a esta altura. Lavaremos as mãos. _ Disse Assis com um profundo suspiro. Estávamos enganados. Ele atacou novamente, onde todos imaginavam impossível. Tive, ao amanhecer do dia seguinte, uma grande surpresa.
* * *
As noticias que chegaram a mim, foram pelos jornais. No amanhecer, assim que abri a janela, avistei vários policias fazendo a guarda da casa. Para que? De onde viria o perigo agora? Algo havia acontecido de grave para eles estarem ali parados como cães de guarda. Procurei rápido pela minha guardiã. Estava com os olhos grudados no noticiários matutinos. Olhou-me incrédula.
_ Mataram-na! Mataram-na! Dora! Dora Lopes esta morta! Meu deus, meu Deus, meu Deus!
_ O que aconteceu? Como pode acontecer?
_ Não sei de nada! Sei o que acabei de assistir pelos tele_ jornais! Não consigo falar com Assis. Olhe lá fora quantos policiais! No estou entendendo o que esta acontecendo! Porque tudo isso?
_ Agora sei o que esta acontecendo, Bárbara. Alguém esta querendo exterminar todos aqueles que estiveram aqui no passado. O próximo pode ser eu. O A V tentou me proteger por todos estes dias. O que eles sabiam, que nós não sabíamos? Esqueceram de Dora. Pobre Dora! Procure por Assis lá fora. Não é possível ficar aqui parado sem poder saber o que esta ocorrendo. _ estava tudo muito irreal, como se estivéssemos grudado em uma gigantesca teia de aranha sem poder nos mover, privado de qualquer liberdade, preso pelo terror com os nervos a flor da pele. Assis apareceu pouco tempo depois. Trazia vários jornais debaixo do braço. Balançou a cabeça contrariado.
_ Estávamos no caminho certo! Lamentavelmente! Como poderíamos imaginar que ele fosse tão longe? Não levou em consideração as conseqüências que a morte da atriz iria trazer! Isso prova a sua decisão de ir em frente matando. Sinto dizer, mas o Sr. corre grave perigo! Soube do crime esta madrugada. Não entendo porque ele não veio até ao Sr. Ele teve tempo. Por algum motivo, desistiu. Graças a Deus! Leia os jornais. Corri os olhos
(“O que esta acontecendo na cidadezinha de B, a duzentos e trinta quilômetro da capital”? Famosa nos anos sessenta e meados dos setenta, quando estava em plena fama de cidade ecológica “esperimentativa”, voltou a ficar famosa na semana passada, quando seu fundador e idealizador do A V. {Ame o verde}.) Jaspim P Vilella, conhecido internacionalmente como J. Vilella, foi enterrado aos noventa anos, morto por conseqüências respiratórias. Esta madrugada, voltou ao noticiário, desta fez em forma de tragédia, com o assassinato da atriz Dora Lopes, estrangulada e encontrada em sua casa de férias, na cidade de B. Filha legítima da cidade de B, ficou conhecida nacionalmente como a eterna namorada de J. Vilella. Meiga e sempre sorridente, era considerada ima das mulheres mais bonitas do Brasil. Esteve sempre em evidências desde os anos sessenta, quando estreou nas telas com o estrondoso filme “A deusa nua” contracenando com atores famosos. Ultimamente estava em filmagens de um novo filme, na Chapada dos Guimarães. Na semana passada ele permaneceu na cidade de B. para o funeral de J Vilella, onde depois voltou às filmagens. Até a pouco ainda não sabia o porquê de sua ida até sua chácara, que fica a cinco quilômetro da cidade. Não era comum na atriz, segundo colegas, pedir um ou dois dias de férias para descanso. Segundo sua empregada que sempre a acompanhava, (A atriz não gostava da palavra “empregada”, dizia “companheira”) insista em dizer que a atriz não se sentia cansada ou exausta pelas filmagens, como se especula por aí.
Dois dias atrás, foi a vez de ser enterrada na capital, a viuva de Analdo Veiga, Andreia Veiga. A matriarca comandava a rede de hotéis Arcos, que se estende por todo o estado. Foi encontrada morta com um saco plástico enfiado na cabeça. Neste caso a policia agiu rápido. O assassino, um desequilibrado mental, antigo namorado com mais de sessenta anos, conhecido pelo nome de Teodoro Boa Ventura, condenado a vinte anos de prisão pela morte de dois homens. Especula-se que tenha cumprido parte da sentença, fora posto em liberdade anos atrás. Com o alvoroço causado pela morte de J Vilella, tenha voltado a cidade e matado a antiga namorada. Feito isso, colocou fogo na floresta que circunda a cidade e depois se suicidou com uma corda no pescoço. Nesta madrugada, o delegado que apura o caso, numa entrevista deu a entender que a atriz estava acompanhada por um homem. “Talvez um namorado”. Ou ele entrou durante o dia, quando alguém deixou a porta aberta e permaneceu escondido, ou acompanhado pela atriz, já que não há sinais de arrombamentos.” Afirmou ele”.
A afirmação do delegado de que a atriz poderia estar acompanhada de um namorado, irritou a filha da atriz, Dorana Lopes, no Rio de Janeiro. Numa entrevista tumultuada desmentiu o delegado, afirmando que sua mãe era uma senhora de sessenta anos, avó e responsável. Bastante nervosa, chegou a pedir na entrevista, que o ministro da Justiça, enviasse homens com mais capacidade._ acontece que num caso como este, o que o ministro pode fazer é pedir ao governo do estado que aja rápido nas investigações. Um novo delegado, só na última hora, de nada adiantaria, já que a policia trabalha com serviço de informação, às vezes feitas por próprios bandidos local.
A V. Estrela de primeira grandeza, garota propaganda do AME O VERDE, era de grande serventia. Ajudou e muito o sonho quase impossível de ser realizado. Amigas de gentes famosas, teve sempre as portas abertas para adentrar onde bem entendesse. Foi muito além. Graças a ela, hoje o A V alcança a fabulosa cifra de cinco milhões de associados pelo mundo afora.
O fim dos maiorais.
Existiu realmente o quarto homem como se especulam por aí? Não há qualquer referência nos arquivos do A V. Wilson Godoy foi o primeiro a morrer e, bastante jovem. Um acidente automobilístico adiou-o de ver o sonho realizado. Contam-se que era o mais alegre do três. Brincalhão, de uma imensa barriga, era palmeirensse doentio. A pedido da família, foi enterrado com uma camisa do time. Sua função no A V era coletar mudas de árvores pelo Brasil a fora.
J. Vilella, o fundador e idealista do projeto era uma figura estranha. Dono de um pequeno jornal, fez dele sua arma mais poderosa, dono de um estilo único, massacrava quem lhe cortasse o caminho. Suas escritas atravessaram o atlântico, com denuncias sob o desmatamento da floresta amazônica. Do outro lado, amigos poderosos, ajudaram-no a seguir adiante. Seu nome foi indicado várias vezes para o prêmio Nobel, lamentavelmente, morreu sem ver prêmio algum.
O último sobrevivente da velha guarda, Gerônimo T Mattos, um médico que nunca exerceu a profissão, foi visto na cidade de B, dias atras, arisco como um bode velho que nunca comeu na mão do dono, finge-se de caduco. Do passado nada fala. Conselheiro de J. Vilella, era antipático perante aos olhos da Atriz. Avesso a qualquer aparição pública, inimigo de festas, era considerado severo demais. O mundo do casal Dora e Vilella, não fazia parte do seu. O casal eram dados as festas longas e muitas bebedeiras alegres. Em fim, era um casal badaladíssimo. Resta agora a policia fazer sua parte.” _ Terminava a reportagem com mais algumas especulações.
O resto do dia foi de uma espera angustiante. Lá pelas tantas da tarde Assis apareceu com a informação que cidade estava cheia de investigadores. Na noite, no começo desta, a televisão mostrou no noticiário uma testemunha que garantia de visto o rosto do assassino. Era uma amiga de filmagens de Dora Lopes. Veja.
“Estamos aqui ao lado da atriz Mara Márcia, amiga da também atriz Dora Lopes, encontrada morta em sua casa de férias, na madrugada passada. A Senhora afirmou ter visto um homem, na manha de ontem, conversando com ela e, que este homem não fazia parte das filmagens. A Senhora confirma isso?”.
“_ Sim. Já disse ao delegado. Fui lavar as mãos na parte de traz da casa, e encontrei os dois conversando tranqüilamente. Não dei importância ao fato. Ela estava tão tranqüila! Só depois que a policia passou a fazer as perguntas, é que me lembrei do fato”.
“_ Poderia nos dizer qual era o tipo físico deste homem?”.
“_ Alto, forte, moreno claro, como todos nativos daqui. Tinha um pequeno bigode, cheio e bem feito, deveria ter entre quarenta a quarenta e cinco anos. Não mais.”.
Foi a primeira vez que tínhamos a certeza de que se tratava do assassino. Batia certinho com o que nos havia dito a pequena mulher das galinhas roubadas, que não havíamos levado a sério.
_ Amanhã teremos o retrato falado dele nas mãos. Aí o pegaremos._ Disse Assis. Estava certo. No dia seguinte, quando o retrato saiu, foi logo reconhecido. Era um homem que sempre acompanhava Andreia. Seu nome: Clodoaldo da Silva. Um prêmio foi oferecido para quem desse qualquer informação sob o paradeiro dele. Ao meio dia Assis apareceu com o rosto fechado, contrariado.
_ Acabou! Não se entregou. Saltou de cima de umas das pedras mais altas, perante os olhos incrédulos dos banhistas. Esteve entre eles desde as primeiras horas da manhã. Ouve o cerco policial. Escolheu o ponto mais alto e sentou-se. Parecia esperar. Não aceitou qualquer proposta para se render. Durante duas horas tentamos um diálogo. Lançou um olhar triste pelos campos e mergulhou para morte! Outra cena arripilante! _ Terminou Assis, abatido.
Não pela morte do assassino, acredito, mas sim por não traze-lo com vida. A diferencia é que um bom policial não traga consigo o desejo de fazer justiça com as próprias mãos.
Estivemos sempre no caminho certo. Tudo havia começado com a morte do chantagista. O assassino, como disse o padre, estivera dormindo por anos, na pele do protegido de Andreia, desde garoto, que depois tornou amante da filha. Chantageada não pensou em pagar resgate algum. Talvez ele tenha ouvido a história pela boca de sua amante. Foi o bastante. Lembrou do tempo em que dera cabo em dois homens que ousara espanca-lo. Fácil. De posse de uma machadinha dera fim no que tentara brincar com sua amada. O jovem ladrão de galinha tivera o asar de estar no local na hora errada. Até aí neste ponto ele ainda cuidava para não ser reconhecido. Dera cabo também na testemunha. E Andreia, porque a matou? A explicação mais lógica é que ela soubera do ocorrido, não aprovando o método usado. E que também poderia ter ficado furiosa com o fato de saber que era ele o amante da filha, ameaçando expulsa-lo. Como disse Assis, não estava nos planos dele matar Andreia. Foi só ele perceber a presença de Teodoro, para dar inicio a sua vingança. Sabendo que não poderia mais ter sua amada, resolveu por em prática um antigo plano de vingança. O hora era aquela. Estavam todos reunidos, como no passado. Só não poderia tocar em J. já estava morto. Morta Andreia, o seguinte seria o próprio Teodoro, que o reconheceu, e ao saber que ele estava ao lado dela, tentou avisa-la do perigo que estava correndo. O bilhete que caíra nas mãos do delegado, como uma ameaça, era na verdade um aviso. Matar Teodoro fora fácil. Incendiara a floresta e o despendurara-o ali. Porque não parou? Tudo não dera certo como planejara? Não. Nada mais lhe dizia qualquer sentido. Em frente. Restava Dora Lopes. Não houve dificuldade em aproximar se dela. Sem querer ofendê-la, o passado nos condena.
Lógica dos crimes? Não existe. Clodoaldo era aquele garoto abandonado pelos pais. J não gostava dele. Tinha lá suas razões. O garoto era bem visto pelos olhos da atriz, que o levava nos fins de semanas para sua casa. Foi quando alcoolizado o pegara, mandando que os dois amigos americanos desse lhe uma boa surra. Estes dois foram os primeiros. Logo naqueles dias, sabendo que estava protegido por Andreia, e que Teodoro estava pagando pelo crime que ele praticara, restava ficar quieto, esperar uma nova chance para depois acabar com todos. Quanto a mim, não sei por que não tentou contra minha vida. Talvez, como um animal ferido que lambe a mão e seu curador, por agradecimentos, poupou-me.
Nos tempos depois que se passaram estas mortes, ficou marcada para o grande público somente a da grande atriz. Dos outros, foram esquecidos. Não falavam de chantagista, do jovem ladrão que roubou algumas galinhas para festejar o aniversário de sua amada, de Andreia que tinha o coração de ouro, que seu grande pecado fora dar ajuda a alguém sem olhar quem. De Teodoro, o sonhador que fora apunhalado por todos nós, que na sua humildade, confiou, foi traído e perdoou. Uma cortina de fumaças foi colocada sobre eles. Então, uma outra história fora criada. Uma mais romântica. Então, ela, somente ela, na sua carência louca de carinhos, que dera liberdade para o coração ouvir um sonhador, um João ninguém mentiroso que não soube contentar-se com um pouco de carinho, e que na sua mesquinhez matara a grande estrela, ouvia-se a quatros ventos. E, como na arte que imita a vida, não passavam de meros figurantes.
Fim.
Direitos reservados. Benjamim R Santos.
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