quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
NADA MAIS QUE A VERDADE
NADA MAIS QUE A VERDADE.
O corpo estava caído ao lado da geladeira, de bruços, com as mãos para frente, como se tivesse dormindo. Os cabelos negros jogados por cima do rosto, deixavam a mostra uma pequena parte deste, do lado do braço estirado. O sangue que havia escorrido por todos os lados, deixara a cozinha de luxo com um ardor insuportável. O médico legista afastou uma pequena mexa do cabelo, deixando aparecer uma pequena parte do rosto, como de uma grande boneca quebrada, olhos abertos, opacos, sem nada enxergar.
_ Ela mesma! Meu Deus! Que diabos aconteceu aqui? _ exclamou este se levantando.
_ Quantas facadas, doutor?
_ Várias. Algumas fatais. Não posso afirmar ainda, mas parece que todas foram desferidas pelas costas. _ Morim olhou ao redor. Três ou quatros latas de cervejas, uma pequena garrafa com resto de bebida de cor indefinida. Um copo caído com o líquido escorrido, várias bitucas de cigarros dentro de um cinzeiro de barro queimado, cuidadosamente arrumados. Olhou as cerâmicas por cima do lavatório de pratos. Examinou a torneira cuidadosamente. Abaixou e retirou o sifão, deixando que o resto de água parada escorresse pelo chão. Depois caminhou para a saída da cozinha em direção aos outros aposentos. No corredor encontrou com dois outros policiais. Examinavam os pisos e paredes e portais.
_ Onde esta Abraão? _ indagou enquanto passava os olhos pelo grande corredor. Olhou de relance os quadros pendurados em forma de degrau. Contou vinte e dois ao todo. Paisagens regionais, alguns índios seminus, e muitas flores.
_ No primeiro quarto à esquerda.
Morim lançou um olhar pelo o quarto. Uma cama de casal, uma mesinha com um telefone, um grande guarda-roupa, uma grande janela coberta por uma cortina de cor cinza. Afastou-a um pouco. Lá fora uma pequena piscina de águas claras cintilava à luz do sol em reflexos. Passava pouco das seis horas da manhã.
_ Ele se lavou no banheiro. _ disse Abraão ao seu lado.
_ O que se passou aqui, Abrão? Não esta sentindo que esta faltando alguma coisa?
_ Há alguma coisa que não esta se encaixando. Olhe para a cama. Manchas de sangues. De quem será? Estaria ele ferido? Reparou na roupa dela? Esta usando um belo vestido para festas. Não estavam em casa? Bastava uma roupa mais íntima! Talvez estivessem em uma festa. _ disse pensativo.
Morim curvou-se sobre o lençol, olhando-o cuidadosamente. Manchas de sangues quase em fileiras, enigmáticas, desafiadoras. Ergueu os olhos e fitou o companheiro.
_ Lembra-se quando éramos adolescentes e olhávamos as estrelas, procurando alguma coisa escrita nelas, sem jamais encontrar um significado real? Estas manchas me fizeram recordar tais fatos. Não parece cuidadosamente arrumada?
_ Sim. Agora preste atenção. Ele se lavou no banheiro, mas... Há uma toalha limpa, dependurada. Como pode?
_ Vamos esperar os exames para seguirmos em frente. _ comentou Morim esfregando os olhos._ vamos esperar para ver quem são as outras peças do quebra-
Cabeça. Aí então montáramo-lo Resta-nos apenas descansar.
*
Pouco depois da uma hora da tarde ambos estavam curvados sob alguns papeis.
_Crime de gente grande. São sempre cheios de truques baratos. Acham sempre que pode enganar a policia. Quando trata se de pobre, a opinião do público é sempre as drogas. É desvio de conduta causada pela falta dos neurônicos mortos. Sabemos muitos bem que a bendita droga esta em todas classes sociais. Veja só quem é a vítima, Abrão. Eva Zacarias. Terceira filha do empresário Augusto Zacarias. Vinte e seis anos. Casada com Heitor F. Borges. Formada em administração de empresas, jamais exerceu a profissão. Alegre e descontraída, era querida de todos. Não há quaisquer detalhes sob inimigos. Como uma beldade como aquela podia ter inimigo? Não devemos descartar que alguém podia matá-la tentado magoar o velho Zacarias. Sabemos que estes grandes homens não medem custos para alcançarem seus objetivos. Isto incluem passar por cima seja lá de quem for. Isto gera certas inimizades. Não é muito agradável julgar e medir a todos com um só gabarito. Mas que sejam todos culpados até que provem ao contrario. Fez sua fortuna vendendo bugiganga porta em porta nos anos sessenta. Dez anos depois montou seu primeiro negócio fixo. Hoje é um dos maiores atacadista do estado. Parece honesto. A receita nada encontrou errado em seu negócio. Olha só que contraste! Um raro caso de conto de fadas! Aos avessos. A Cinderela, neste caso trata-se de um homem!
_ Heitor f. Borges, trinta anos, suposto assassino. _ Deve ter nascido em noite de lua cheia!_ Foi balconista de farmácias, motorista classe B, garoto de recados de um salão de beleza. Entrou para empresa do velho Zacarias como empacotador esperando uma vaga como motorista de entregas. Foi aí que caiu nas graças da filha do patrão. Não pensou duas vezes, casou um ano depois. O velho sogro o colocou como supervisou pelas filias. _ Bastante esforçado este rapaz!_ Viajava muito. Era considerado um sujeito de confiança do sogro. Falava-se que seria o sucessor do sogro. _ Neste ponto aqui, a lógica falha. Porque ele mataria a galinha dos ovos de ouro?_ Das velhas amizades feitas na juventude, não conta nenhuma. Parece que tinha a intenção de passar um pano limpo no passado. _ Que o envergonharia para fazer isto?_ Talvez nada. Com o pensamento de uma carreira promissora, só restava pensar que os amigos pobres iram mais atrapalhar que ajudar. Sem dúvida daria um ótimo empresário! Não é a primeira vez que um marido mata uma esposa por ciúme! Ate agora não há nada que prove ao contrario. Ele esta sendo cassado como o principal suspeito. Foi feito um rastreamento dos passos dele no dia do crime. Chegou um dia antes, como era seu costume, esteve com o sogro antes de ir para casa, só encontrou a esposa na noite da chegada. Nota encontrada mostra que ele comprara um anel de brilhante para presentear a esposa. A empregada Maria das Dores confirma a história. Diz também que o clima entre o casal não era o dos melhores. Discutiam algumas vezes. Durante o dia do crime Eva saíra de manha e não fora vista mais. O marido almoçara só. Segundo a doméstica, nada de estranho parecia ter com Heitor. Ele saíra antes das quatro da tarde. Quando Maria das Dores deixou a casa, às seis horas, ele ainda não havia retornado. _Nada de estranho neste fato. _ Esteve bebendo no bar que freqüentava a duas quadras abaixo da empresa do sogro. Não ficou muito tempo. Uma discussão com um funcionário da própria firma pôs um ponto final na conversa. Ouça o que disse o garçom aos nossos policiais.
“Quando o Sr. Heitor chegou, o Sr. Godim já estava no bar. Já tinha tomado quatro cervejas. Tomaram mais duas cervejas, foi quando o Sr. Heitor levantou e derrubou os copos de cima da mesa. O Sr. Godim gritou”:
Você vai voltar a ser motorista novamente!”“. _ São Palavras do garçom porque iria mentir? Vamos analisar um pouco este Sr. Heitor”.
_O que teria deixado tão fora de si para fazer o que fez? Pelo que foi ouvido das pessoas que o conheciam muito bem, isto não era próprio dele. É considerada uma pessoa calma. Era. Como é de costume, algumas pessoas estão mostrando o lado negro da mente, dizendo que ele era uma pessoa muito estranha._ Antes da tragédia era normal. Humanos são humanos! _ disse Morim esfregando os olhos irritados. Nada dormira desde a meia noite. Abrão estava sentado com as pernas espichadas, olhos fechados parecendo cochilar. Mas estava acordado.
_ acho que o melhor a fazermos é almoçar e tirar um pequeno cochilo. _ sugeriu bocejando. Este caso vai dar muito panos para as mangas do bebê.
_ Boa idéia, meu velho! Discutiremos o caso mais à noite. Saco vazio não para em pé! Vamos devorar alguns bifes e uma boa salada com fatias de mamão!
*
_ Temos aí a mãe de Heitor, Morim. Esta só. Dê uma olhada nela. Parece uma pessoa bastante descente. Esta nos esperando já faz uma meia hora _ disse Abrão.
_ Meia hora? Mas como podem deixar uma senhora ficar tempo à espera? Temos fila aqui também? É esta a nossa cultura, Abrão, concordar com a burocracia? Longa espera em delegacia é tortura psicológica! Quando iremos conseguir mudar a mentalidade destes nossos policiais? _ Morim foi até a janelinha de vidro negro e olhou através dele para grande sala entupida de gente.
_ Esta vestida de azul. _ disse Abrão.
Morim ficou olhando-a por alguns segundos. Maneou a cabeça, insatisfeito.
_ Dizem por aí que somos sujeitos cruéis. Será que estes linguarudos acham que nunca tivemos mãe? Olhe para o rosto dela! Como esta sofrendo a coitada! Vá buscá-la, homem! Vejamos como poderá nos ajudar. _ Morim ficou no mesmo lugar. Quando Abraão entrou com uma senhora curvada, de passos inseguros, foi ao seu encontro.
_ lamentamos que a tenham feito esperar tanto, minha senhora. É o velho mundo ainda de pé. _ disse ele todo elogio.
_ Concordo que a espera em qualquer parte é bastante desgastante; mas em hospitais e delegacias é simplesmente cruel! Mas não estou aqui para tentarmos resolver este problema, doutor! Tenho ouvido falar bastante sobre seu modo de agir! Sei que o senhor é um policial justo! O senhor tem que me ajudar! O meu filho é inocente! Ele não matou Eva! Meu Deus, como podem acreditar nisso? Ele a amava! Amava muito! Ela era sua vida!
_ Mantenha se calma, minha senhora. Entendemos muito bem a situação em que se encontra. A verdade. Somente a verdade nos interessa. Às vezes a verdade dói mais que a mentira. Algumas pessoas frágeis a preferem por ser um caminho sem pedras! Buscamos sempre a verdade. Doa ela a quem doer. Lamentamos que isto também lhe diga respeito. Não devemos esquecer dos pais de Eva. Deve imaginar o quanto estão sofrendo. Se não foi Heitor quem a matou, uma outra pessoa foi, com toda certeza. Quanto a seu filho, seria bom que ele se entregasse... Um bom advogado...
_ compreendo, mas...Não...Não podemos confiar... O velho Zacarias é bastante influente. O Senhor Sabe o que quero dizer... Os poderosos... A lei os protege.E também não sei onde ele se encontra. Gostaria tanto de ajudá-lo um momento como este!
_ A senhora tem outros filhos? Alguém que lhe faça companhia?
_ minha filha caçula. Ela não sabe que estou aqui. Ontem à noite mencionei meu desejo de vir aqui hoje, ela ficou bastante nervosa. Porque os senhores não nos façam uma visita amanha? É para sabermos como estão andado as coisas.-_ Morim fez um positivo com a cabeça.
_ É melhor que volte para casa e procure descansar. O caso esta em nossas mãos.
Pouco depois ela deixava a delegacia. Ambos ficaram a olhando sair.
*
Abraão olhou os papeis que tinha nas mãos e franziu o cenho. Jogou-os sobre a mesa e fitou Morim, que parecia cochilar, cabeça baixa, queixo encostado no peito.
_ O que há de estranho no homem, meu velho? _ Disse ele levantando a cabeça.
_ O sujeito é mais comum que possamos supor. Oito anos trabalhando na firma do velho Zacarias, jamais fez um curso profissionalizante. Usa roupas de grife, tênis da moda, cabelos aparado todos os fins de semanas, é solteiro. Todas as garotas de programa de cidade o conhecem. Trata-as muito bem. Não reclama do preço exigido por elas. Algumas recebem algumas flores antes do convite amoroso. O único defeito notado por elas é que ele é metódico demais. Vai para a cama sempre na hora certa, levanta na hora programada, e não gosta que alguém interfira. Exige respeito pelos seus ábitos. Algumas delas não gostam dele. Queixam-na de sua higiene exagerada. Esta sempre lavando as mãos, se não tem água, limpa com um uma pequena toalha que usa para enxugar o suor do rosto. Voltado ao seu trabalho, ele não esta subordinado a gerencia da empresa, mais sim da esposa do velho Zacarias. Falando em português claro, é um protegido dela. Dizem que a única razão para o velho aceitar tal fato, é que ele esta na firma há muito tempo, inclusive nos tempos da vaca magra.
_ Segunda esposa do velho Zacarias. É bonita? _ indagou Morim.
_ Não, não tem mais aquela beleza da juventude. É séria demais. Tem um rosto fechado por trás dos óculos escuros.
_ Conhece alguma pessoa rica que não gosta de se esconder por traz de um óculo escuro?
_ Como estava dizendo, Morim, tudo muito comum.
_ Vamos agir, Abraão. Vamos ver o que esta escondido por trás deste ilustres personagens. Chame o tal Godim. Ele já está por aí? Vamos ver o que tem a nos dizer. _ pouco depois um homem alto de porte atlético estava sentado em sua frente. Morim olhou-o cordial
_ lamentamos o incômodo Senhor Godim. Parece-me que acordou agora pouco. _ disse apertando-lhe a mão.
_ Sim. Menos de meia hora. Deito e levanto-me nas horas certas. Um velho costume. Isso faz com que o organismo trabalhe em harmonia.
_ O senhor é um homem de sorte. Gostaríamos muito de adquirir este bonito ábito. Lamentavelmente temos a vida uma tanto agitada. Sabe como é. Os crimes não têm hora certa para acontecerem! O senhor não acha?
_ Nada sei sobre este assunto. Gosto dos livros policiais. Somente como diversão. Não perco meu tempo tentado adivinhar quem matou quem. Embora sei que o criminoso é sempre a pessoa que menos se espera o leitor. Não sei se na vida real também é assim. Se forem estamos perdidos!
_Um truque barato usado pelos escritores, Sr. Godim. Se não for assim, onde entrará o mistério da coisa?
_Podem muito bem colocar o assassino em primeiro plano. Senão tudo se torna muito corriqueiro.
_ Também concordo com esta hipótese. Seria um belo drama com dez linhas. Suponhamos que o assassino de Eva Zacarias fosse o senhor. Bastaria eu dizer o motivo que o levou a matá-la, e o caso estaria encerrado. Que me diz?
_Digo que o senhor iria precisar de uma bola de cristal. Devemos concordar então com os escritores policiais. Onde ficarão os detalhes das investigações? E as provas do crime?
_ Tem razão, Sr. Godim. Tens toda a razão. Era amigo de Heitor?
_ Sim. Pelo menos era o que tentávamos ser. Trabalhamos para o mesmo patrão.
_ Pelo o que sabemos o Senhor Recebe ordens da esposa do Sr. Zacarias.
_ Sim. Estou diretamente subordinado mais a ela que ele. Faço parte de sua equipe. Da sua repartição.
_ Pode nos dizer o que aconteceu na noite em que estavam bebendo, a duas quadras da empresa?
_ Tentei dar-lhes alguns conselhos. Ele apelou. Disse que estava muito magoado com Eva, que queria a separação. Disse-me que estava a fim de lhe dar alguns bofetões. Disse a ele o que ele estava procurando era voltar a ser um motorista novamente. Só isto.
_ Acha que Heitor a matou?
_ O ciúme é uma doença grave. Porque não?
_ Porque ele sentiria ciúmes? Ele desconfiava da esposa?
_ Não sei nada disso. O senhor já deve ter ouvido um velho ditado popular que diz mais ou menos assim: se não que perder um amigo, feche os olhos para os passos sua mulher.
_ Sim, sim. Conheço o ditado. Mais que bons amigos, melhores inimigos.
_ Não entendi, doutor.
_ Estou dizendo que nem todo o amigo gostaria de continuar na escuridão. É um caso de consciência. Sr. Godim. Nem um amigo verdadeiro iria ficar em cima do muro em uma hora destas. Parece-me que o Sr não é amigo dele.
_Não esta provado que ela o traia. Esta?
_ O Senhor É que levantou esta idéia.
_Eu? Longe de mim tal blasfêmia. Fatos são fatos, não são?
*
Silvia Lemos desligou o carro e suspirou profundamente. Seu marido ao lado, manteve quieto, olhando um ponto inexistente em sua frente.
_ Tome cuidado..._ disse baixinho.
_ Esta temendo o que? Acha que sou alguma tola? Você não a matou!
_ Esta sendo tola agora! Sabe bem que não estou falando disso! Não sabe quem é este policial. Ele é cheio de truques com as palavras. Quando você menos esperar ele já arrancou sua confissão! Tome cuidado!
_Mantenha se calmo, meu bem. Tudo vai dar certo. Vamos torcer para que ele coloque logo o assassino atrás das grades._ disse ela dando um beijo no rosto dele.
_ Cuidado...! _ tornou ele_ muito cuidado!
Ela maneou a cabeça e deixou o estacionamento com passos seguros. Pouco depois estava estalada em uma cadeira em frente de Morim.
_Lamentamos incomodá-la, Sra. Silvia. Vejo que esta muita abalada com a morte de sua amiga Eva._ disse ele todo deleito com ela. Estava deveras impressionado com a beleza dela. Olhou de soloio para Abraão que parecia mergulhado em papeis.
_ Sim. Muito. Não consigo aceitar tal idéia de que ela se foi. Não se importe com o meu choro, Dr. Morim, mais estou realmente sentido muito. Ela era minha melhor amiga. Éramos inseparáveis. Éramos como irmãs.
_ Como era a Sra. Eva? Estou falando de seu caráter.
_ Maravilhosa. Meiga como uma criança de colo. Porém, infeliz. Heitor a magoava muito. Era mulherengo demais.
_ Demais? A Sra. Esta dizendo que um pouco mulherengo é aceitável?
_ Qual o homem que não traem sua esposa? Pobre Eva! Como pode aceitar tanto? Ele não era ninguém!
_Não era ninguém em que espectro, minha senhora? Financeiramente, ou como marido?
_ _Me desculpe, Doutor Morim. Não devia ter dito a frase. É que sinto tanto ódio dele...!
_ Foi testemunha de algumas de suas brigas?
_ Muitas. Ela sempre abaixava a cabeça. Falava em deixá-lo. Depois dizia que não podia. Amava muito ele. Era o que dizia.
_ Ela mantinha um outro caso paralelo ao casamento? Tinha um namorado?
_ Não! Por Deus! Como pode pensar uma coisa dessas? Jamais! Se ela tivesse, eu saberia. Gostaria que o Sr. Não mais batesse nesta tecla.
_ Alguém matou sua amiga, minha senhora. O que estamos procurando é apenas a verdade. Somente a verdade. Se tem tanta certeza que ela não tinha um outro homem, porque temer?
_ Ela esta morta! Não esta aqui para se defender! Estou pronta para desmentir qualquer tipo de calunia que tentarem colocar sobre ela! Coloque aquele mostro atrás das grades! Não merece a liberdade. Oh, meu Deus! Como é difícil falar sob isto!
_ Sim. É bastante desagradável. Infelizmente temos que seguir adiante.Esteve com ela no dia do crime?
_ Sim. Conversei um pouco com ela na parte da manha. Estava normal. Disse que Heitor havia saído para comprar alguma coisa. Não disse o que era. Se disse, não me lembro. Fiquei tão chocada com o fato que minha cabeça parece não estar funcionando bem.
_ Talvez Maria nos possa dar mais detalhes.- comentou ele olhando-a rapidamente.
_ Quem doutor?
_ A empregada, minha senhora. Falha-me na memória o nome inteiro.
_Hã, sim. Maria das Dores. O que ela poderá lhe disser de útil doutor? E quase analfabeta...!
_ Talvez a verdade, madame. Não descartamos qualquer carta que seja do baralho. Pode nos ser útil a qualquer instante.
_Estou dispensada?
_ Esta dispensada, minha Senhora. Manteremos o contato.
Assim que ela saiu, Morim olhou para Abraão.
_ Que diz?
_ Ela esta escondendo alguma coisa. Mais tarde ouviremos a fita. Como é bela!
_ Sim. Muito bela. …
* * *
Abraão esperou que as crianças que saiam de uma escola passassem e seguiu novamente em uma marcha leve, devagar. Morim olhava as fachadas das casas tentando encontrar o numero exato em que procuravam.
_Que contraste! Como podemos viver em dois mundos num mesmo teto? Qual é a sensação de uma pessoa que tem muito alimento em sua mesa ao saber que a do vizinho esta vazia, com crianças chorando ao redor desta com fome, hein, meu velho?
_Não sou a pessoa certa para falar sobre o assunto.
_ Sim.Não somos. Veja estas casas. As maiorias estão sem calçadas nas frentes. Isso não seria um caso de ajuda da parte da prefeitura? Pelo ao menos manteríamos as ruas limpas. Uma pena!
_ Esta é a rua. O número é 1564. Heitor cresceu por estas ruas.Poderia ficar escondido por aqui por um longo tempo. Isso até alguém denunciá-lo. Muito provavelmente esta por aqui. Talvez em uma casa de uma antiga namorada. Vamos deixá-lo em paz. Interessa mais ouvir sua irmã. Continuo achando as cunhadas uma cunha de aroeira, quando encrava entre os casais, dificilmente sai. Aí esta a nossa casa, Abraão. Simples como imaginei. Um pouquinho melhor que as outras, mas simples. Olhe lá! Esta vendo o que estou vendo? Estamos feitos! Mamão e dos belos! _ Terminou morim entusiasmado. Desceram do carro e esperaram a velha senhora aparecer. Quando ela chegou ele pôs se ao trabalho de elogiar o mamoeiro.
_ Que belo mamoeiro, minha senhora! Jamais vi mamões tão grandes! Devo dizer que me sinto envergonhado em pedir um destes belos exemplares!
_ Ora! Fique a vontade! Pedirei ao garoto do lado que tirem alguns para o senhor.
_ Obrigado! _ Disse Morim olhando o semblante triste da mulher. Parecia que não havia dormido bem nas últimas noites. Ela fez um gesto com a mão, e ambos a seguiram silenciosos. Depois de acomodados, ela comentou num lamurio seu desgosto por ser mãe de um procurado pela lei.
_ Tudo isto parece um pesadelo! Não consigo mais sair de casa. Todo mundo me olha como se fosse um mostro! Até os velhos amigos de outrora se afastaram! Que culpa tenho eu? Meu filho é culpado? Posso lhe afirmar com coração de mãe que ele não a matou! Somos religiosos! Meu filho foi criado longe da violência, começou a trabalhar muito jovem ainda! Estava tudo indo tudo muito bem para ser verdade!
_ Sabemos da dificuldade que nós, policiais, temos em passar para os cidadãos certa confiança, mas acredite, o que queremos é desvendar o caso mais rápido possível. Isso é bom para a senhora e para todos. Se ele não foi o assassino, a verdade, cedo ou tarde ira aparecer. Para que isto aconteça, o melhor a fazer e que ele se entregue. Procure um bom advogado para lhes orientar. A Senhora Tem falado com o Sr. Zacarias?
_ Minha filha tentou. Já não tínhamos muita intimidade antes, agora ficou pior. Eva foi sempre muito gentil conosco, nos tratava muito bem. Convidou-nos vária vez para ir até a casa do pai. Estive lá uma ou duas vezes. Sabe como é. Temos outro tipo de vida. Entre eu e os familiares dela, jamais teríamos um relacionamento sincero. Aceitava-nos somente pelo grau de parentesco com Heitor. Nada mais. Mesmo assim, sinto-me culpada. Deveríamos ter sabido que cedo ou tarde haveria uma separação. Só que nunca imaginei que fosse tão trágica. Meu Deus!
_ Lamentamos profundamente. A Senhora Deve imaginar como deve estar se sentindo o Sr. Zacarias. É por estes fatos que não podemos deixar os bois sem nomes. Faça como estou pedindo. Talvez não saiba como encontrá-lo por enquanto. Mas se tiver qualquer informação sob ele, tente fazê-lo se entregar. Confie em nós.
_ Espere um instante. Parece que minha chegou. Sim é ela. Blenda, filha, estes senhores são da policia. Vai nos ajudar.
_ E a Senhora acreditou, mamãe? O que disse a eles? O que disse a eles mamãe?
_Não fique assim, minha filha! Estamos precisando de ajuda. Podemos confiar nele!
_ Se a senhora lesse jornal saberia quem são estes dois, mamãe! São como urubus famintos em cima de uma cassa! Não sabemos onde se encontra Heitor! Se quiser o assassino de Eva, procure pelo seu amante! Foi ele!
_ Eva tinha um amante?
_ O que o Senhor, acha, Dr. Morim?
_ Se sabe de algo que não sabemos, é melhor para seu irmão que nos diga. Podemos ser cruéis como as pessoas dizem. Mas jamais dormiríamos sossegados com um inocente atrás das grades. Não esta vendo como esta sua mãe? Se sabe de alguma coisa, diga-nos, mais rápido solucionaremos o caso. Porque tem tanta certeza em firmar que sua cunhada tinha outro homem alem de seu irmão?
_ Ela tinha um rostinho de santa. Mas não era. Pode ter enganado Heitor. Mas não a mim! Sei que ela saia com um homem quase da mesma idade que Heitor. Certa fez quando saíamos da escola, eu e uma amiga, vimos ela com este homem. Um sujeito bonito. Alto, tipo atlético dos olhos verdes. Como ela era uma imbecil, foi fácil ser seduzida. Não adianta me perguntar que é ele porque jamais o vi novamente.
_E como pode ter tanta certeza que ambos eram amantes?
_ Não sou burra como meu rosto teima em mostrar, Doutor,nem preciso que meu sexto diga alguma coisa. Sei e pronto.
_Poxa! Bem, sendo desta forma, com tanta certeza, não nos resta outra saída a não ser procurar o tal galã._ Comentou morim um pouco sem graça.
_ Porque não falam com a empregada dela? Talvez saiba de alguma coisa.
_Faremos isto. Quanto às senhoras, mantenha em casa, não fale com estranhos. Quantos a nós, estamos trabalhando. Logo,logo resolveremos isto.
*
_ Duas mulheres de opiniões diferentes, Abraão. Qual delas estarão com a verdade escondida? A amiga faz seu papel defendendo-a. A cunhada a condena. Sabemos como qual é o verdadeiro papel das cunhadas e sogras. Estão sempre por perto, mudas como uma porta, mas com os olhos e ouvidos bem atentos. Eternas guardiãs, que ao mais simples dos erros, a boca que beija, põe a língua ferina para fora, cruel como as navalhas dos maus barbeiros nos tempos da monarquia. Deixaremos ela de lado. Quanto ponto negativo encontrou na cena do crime?
_ Vários. Primeiro: ele a matou e foi deitar, sujando o lençol. Não faz sentido. Segundo: as manchas de sangue no lençol parece ter sido saído de um sangramento. Os exames mostram que o sangue era da vítima, e não dele. Suponhamos que ele estivesse muito bêbado e estivesse deitado para recuperar dos efeitos do álcool. Aí as manchas seriam vistas com os sinais dos dedos.
Terceira: o crime fora de uma brutalidade chocante. Sabemos que num coso como este, um assassino que não tivesse qualquer parentesco com a vítima, poderia ter feito várias coisas dentro da casa. Inclusive, fazer uma refeição e deitar um pouquinho. Mas, ele era seu marido! Qual seria a reação natural num caso destes? Depois de matá-la, a realidade viria à tona rapidamente. O pensamento neste caso é limpar as mãos o mais rápido possível. Lavou-se , mas parece não ter tocado na toalha. Como o sangue dela veio parar encima do lençol? Pode se dizer que estava bêbado demais para pensar nisto. É provado que o subconsciente age num momento como este. Um bêbado, por mais que estiver, sempre para em frente a uma avenida movimentada, a espera de uma chance para atravessá-la. Se ele cai e é atropelado, a culpa não foi do cérebro, mas sim das pernas que não o agüentou. Pode ter acontecido isso. Mas... Porque não tem marcas de sangues pelas paredes do corredor, pelos portais onde ele se apoiaria, já que a perna não o agüentava? Falta a lógica. Devemos procurar outra explicação.
*
Morim estava pensativo. Permaneceu assim até no fim da tarde, quando pensava em tirar um pequeno cochilo, uma policial a procurou-o com um pequeno telefone de mão.
_ Tal Silvia Lemos._ Disse ela
_ Que coisa! Onde terá ela conseguindo este número?_Comentou ele enfrentando o olhar irônico da moça.
_ Dr. Morim? Aqui é Silvia. Gostaria de falar com Sr. Poderia se daqui a pouco?
_ Sim, claro. Poderemos ir ate sua casa, se não se importa.
_ Estarei esperando. Até mais ver.
_ Que notícias terá para nos dar a bela Sra. Silvia? Deve ter lembrado de alguma coisa que deveria ter nos dito. Que tipo de neblina cobre esta senhora? Parece-me uma boa atriz. Resta-nos, ouvi-la.
*
_ O Sr. Sabia que Eva gostava de pinturas? Adorava os quadros regionais._ Disse Silvia, servido duas xícaras de café. _ tive uma grande surpresa agora à tarde. Estive com O Sr. Zacarias. Num gesto de delicadeza, perguntou-me, se eu gostaria de ficar com os quadros dela. Respondi que gostaria muito. Ela já havia me presenteado um na semana passada. O Srs. Gostariam de olhá-lo por instantes?
_Nada entendemos desta arte, madame.
_ O Trarei em um instante. _ Disse e se afastou, pouco depois voltou com um pequeno quadro na mão. Morim olhou-o surpreso.
_ Pensei que fosse maior. _ Disse ele olhando seu conteúdo. Mostrava uma montanha ao fundo, embaixo, no vale, parecia um vulto de um homem de costas, com um ramalhete de flor nas mãos. Parecia olhar o infinito.
_ O “Solitário”. Eva passava tempo olhando este quadro, tentando captar alguma mensagem. _ Disse ela colocando-o em cima de uma mesinha no centro do aposento.
_É mesmo?
_ Sim. Mas como dizia, aceitei de bom agrado os presentes. Mas aí veio a grande surpresa: quando fomos pegar os quadros estes haviam sido destruídos! Imagine os senhores, quebraram todos! Os armários do banheiro, os da cozinha e tudo que foram encontrando pela frente. Ai! Como estou chocada! Nunca vi tanto vandalismo! Ele é cruel!
_ Ele? A Sra. Esta pensando que foi Heitor?
_ O Sr. Não entendeu? Ele voltou e destruiu tudo! Esta louco! E eu estou com medo! Liguei agora pouco para o meu marido, para que venha imediatamente para casa! Não quero ficar um só momento sozinha! Nunca gostei dele! Pode estar por aí à espreita!
_ Mantenha a calma. Porque ele viria até aqui? Não há motivos para pânicos. Confie em nós. Deve saber que não deixamos trabalho com final de interrogação. Se foi ele, vamos botar as mãos em cima dele. Agora temos que ir. Temos muito que fazer. A manhã teremos um encontro com a empregada de Eva, talvez ela nos diga alguma coisa que nos interessa.
_Quem? Maria? Pobre criatura! É tola demais para saber de alguma coisa.
_ Esta enganada, madame. As pessoas tolas de nascença, não sabem fingir. São como crianças. Os “sim, sim. Não, não.” valem muito.
*
Uma multidão de curiosos cercavam a casa. Uma corda fora posta como divisória para preservar o local do crime. Um corredor humano fora aberto e Morim e Abraão passaram por ele sem olhar a cara da turba. Ao lado do cadáver olharam desolados para os lados. Rastros e mais rastros. Tempo perdido. Ate um pouco antes da chegada, policias ainda retiravam os curiosos que estiveram ao lado do corpo, caído em um quartinho, aos fundos do terreno, sem muros na frente. Morim curvou-se sobre o corpo da mulher. Trazia ainda o pavor no rosto. Fora uma mulher corpulenta em vida. Jazia com a parte posterior do corpo para dentro do pequeno aposento. As pernas, do joelho para baixo, estavam para fora. Morim olhou os objeto dentro do quartinho. Uma peneira fina dependurada, uma pequena enxada encabada, uma foice sem cabo, e vários apetrechos de pequenas utilidades domesticas. Resumindo: Era um aposento de guardar bagulhos.
_Alguma pista? _ Indagou para um policial de perícia.
_ Nada. O corpo foi encontrado por um garoto que mora ao lado. Veio pegar a bola que caíra para o lado de dentro do terreno dela. Como vê, as pernas dela estão para fora. Isto chamou sua atenção. Como é comum em um caso destes, abriu a boca para meio mundo. Deve ter passado por aqui, umas quinhentas pessoas.
_ Lamentável. Uma testemunha seria um bom começo mas parece que é inútil. Mesmo assim procure. Ofereça segurança. Temos que botar as mãos neste assassino. É possível que alguém tenha visto alguma coisa de suspeito. O medo. O medo impõe lei do silêncio. Que arma foi usada?
_ As mãos. O assassino a estrangulou numa gravata mortal.
_ Continuem trabalhando. Mantenham os ouvidos e olhos atentos. Procurem saber que tipo de carro foi visto por perto nas últimas horas.
_ Certo, Doutor Morim.
*
_ Tudo leva crer que ela sabia de alguma coisa, Abraão. O assassino não quis correr o risco. Irá eliminar todas as pessoas que pode lhe oferecer perigo. Isso inclui Silvia lemos. Podemos considerar Heitor fora deste assassinato. Porque ele iria complicar ainda mais as coisas?O assassino sabia que a empregada iria falar alguma coisa de importante. Devemos concentrar nossa investigação na procura do tal amante. Passamos agora a pisar em ovos.Não podemos levantar suspeitas infundadas sobre uma vítima de assassinato. Corremos o risco de levarmos um belo processo nas costas. Um namorado assassino? Por quê? Motivos banais? É bobagem quebrar a cabeça com elas agora. Ligue para Silvia. Vejamos como ela se comportará ao saber da morte de Maria das Dores.
_ Alô? Aqui é o Morim...
_ Doutor Morim? Preciso lhe falar! Estou com medo! Foi ele!
_ Mantenha a calma. Estamos trabalhando. Não há motivos para pânicos.
_ Não? E ela? Porque a mataram então? Pobre Maria! Que fim horrível! Ela sabia de alguma coisa! Por isso ele a matou!
_ Talvez não haja ligação com a morte de Eva. O assassino usou as mãos aos invés de facas. O crime foi há poucas horas. Nossos homens estão trabalhando. Porque não tira umas férias e vai para casa de sua mãe?
_ Estou desempregada a meses. Tenho problemas com mamãe. Não tenho para onde ir. Para casa de minha sogra, não podemos. Ela mora em outro estado. Que devo fazer?
_ Fique em casa. Procure relaxar. Porque temer se nada deve? Diga a seu marido que fique atento. Se sair para rua, vá para lugares movimentados. Em casa, tranque bem as portas. Resolveremos tudo em poucas horas.
_ Queria ter a sua confiança, Dr. Morim. Mas farei o que me disse.
*
Duas horas mais tarde ambos receberam uma informação que uma jovem estava os procurando.
_ Nossa apimentada garota Blenda._ disse Abraão, olhando-a pelo vidro negro. Trará-nos notícias importantes? Parece mais bonita sem o maldito orgulho. Esta pálida e mais magra. Como deve estar sofrendo! Pobre criança! Vamos recebê-la agora?
_ Sim. Ela pode mudar de idéia e ir embora. Vejamos o que ela tem a nos dizer.
Pouco depois ela entrou. Parecia um pouco curvada e com os olhos fundos. Deixava claro o reinado de uma insônia cruel.
_ O Senhor Esta muito ocupado?
_ Não. Sente-se. Vejo que esta mais calma. Algo de importante?
_ Minha mãe passou mal esta noite. Teve uma crise de pressão alta quando soube do assassinato de Maria das Dores. Tentei proibi-la de ler os jornais quando sob da noticia. Infelizmente ela assistiu pela televisão. Não posso acreditar que meu irmão a tenha a matado. O Sr. é um homem inteligente. Se ele matou Eva bêbado, por que ele iria matar Maria? Não faz sentido. Pobre Heitor! Se ele matou Eva, deve estar muito sentido. O crime não foi premeditado. Foi uma tragédia causada por estas drogas em líquidos chamadas de álcool.
_ Srta. Blenda, estamos trabalhado. Nada escapa de nós. Meu companheiro e eu, temos nossos métodos. Detalhes que às vezes passam despercebidos, nós o passamos em uma peneira fina. A verdade, somente a verdade nos interessa. Volte para casa, cuide de sua mãe. Diga a ela que a verdade irá aparecer. A verdade é doida,mas necessária. Conhecia bem a empregada de Eva?
_Não. Vi a uma duas vezes. Não mais. Pobre criatura! Como podem fazer isto com uma pessoa que não fez mal a ninguém?
_ Sim, talvez ela não tenha feito mal algum. Mas com certeza sabia de alguma coisa. Quem sabe tenha visto algo que nos levaria ao assassino. Isso foi à causa de sua morte.
_ Resolva isso de uma vez por todas Senhor Morim. Minha mãe não ira resistir outra crise de pressão alta. Faça o que tem que ser feito e não se esqueça do que lhe falei. Ela tinha um amante. Encontre-o e terá o criminoso em mãos! Tenho que ir. Até mais ver.
Ambos ficaram olhando-a a afastar.
_ Garota esperta. _ Comentou Abraão. _ Devemos retirar o que você disse sob as cunhadas?
_ Ainda não, meu velho. Ainda não.
*
As dez da noite, após um leve jantar, ambos estavam curvados sobre vários papeis. Um novo boletim foi jogado sobre sua mesa. Morim soltou um profundo suspiro de alivio após lê-lo. Passou-o para Abraão e ficou esfregando as mãos em frente à boca, olhos semicerrados, pensativos. Entre os produtos de um assalto,pego junto com o assaltante, um cheque de Eva dava nova pista para o caso.
_ Um vagabundo de rua troce-nos alguma luz._ Comentou ele satisfeito_ Ele assaltou a loja as quatro da tarde. Tentou a fuga em uma moto e foi pego pela patrulha que passava pelo local. Cento e oitenta reais em dinheiro vivo, quatro mil em cheques. Entre estes, um de Eva Zacarias, no valor de mil reais. Foi preenchido há vinte dias a traz o valor foi pago em materiais para construção no nome de Maria das Dores. Não pude notar qualquer reforma externa na casa dela. Notou alguma coisa, Abraão?
_ Não. Não foi feita reforma alguma. Temos que entrar em contato com a filha dela. Veremos o que ela tenha a nos dizer sobre o fato.
No dia seguinte, as oito em ponto, estavam com a filha mais nova de Maria das dores. Uma jovem senhora grávida de sete meses torceu as mãos nervosas. Apontou para um monte de tijolos e comentou:
_ Sim, ela mandou entregar estes materiais aqui. Os senhores querem ver a nota fiscal?
_Não, não é preciso, moça. A pergunta que vou fazer pode soar como um tanto ofensivo, mais temos que fazê-la, compreende? Preste atenção. Sua mãe tinha feito algum acerto de conta entre ela e a patroa?
_ Não. Minha mãe não havia feito acerto algum. Recebia apenas o salário no fim de cada mês. Às vezes um pouquinho a mais por algum serviço extra. Ontem a tarde um senhor esteve aqui. Disse-me que era por parte do senhor Zacarias, pai da dona Eva. Disse-me para procurá-lo para tratar de dar baixa na carteira de trabalho de minha mãe. Deu-me este cartão. _ mostrou um pequeno cartão. Morim leu-o rapidamente. Havia um número de telefone e ele marcou na palma de mão.
_ Talvez ela tenha pedido o dinheiro emprestado para a patroa.
_ Isso eu não sei. Não acredito. Ela não iria fazer isso.
_ Bem, minha jovem o caso é complicado. Não queremos por em jogo a honestidade de sua mãe. Sabemos que pessoa como ela é uma heroína. Mas como acha que sua mãe conseguiu este dinheiro?
_ Não sei. Só sei que minha mãe não roubou este cheque. Ele foi dado pela mão dela, não foi?_ Disse ela um tanto pálida. _ foi um presente. Sim. Um presente. As pessoas podem receber presentes em dinheiro, não podem? Minha mãe não roubou este cheque! Não podem receber presentes em dinheiro...? _disse e soltou um soluço profundo.
_ Sim. Podem. Não é nenhum crime. Agora vá descansar. Cuidado com o bebê! Cuide de sua casa, moça. Manteremos contato. Se lembrar de alguma coisa, procure-nos. Lembre-se: estamos trabalhados. Jogaremos o assassino de sua mãe atrás das grades. Não tenha dúvida!
*
De baixo de uma sombra agradável o dois policial olhavam silenciosos um jovem que varria o grande pátio de estacionamento da firma Zacarias & comercio. Era hora de almoço e poucas almas eram vistas. Exceto pelo varredor, quatro pessoas passaram pelo local nos dez minutos que ambos estavam ali parados, esperando que o velho Zacarias os recebessem. Morim fez um gesto de enfático e saiu do carro. Aproximou do jovem zelador e perguntou pelo patrão.
_ Ele esta lá dentro. Desde que a sua filha morreu ele não almoça mais em casa. A comida vem de um restaurante. Afoga as magoas no trabalho.- comentou o jovem sem deixar de varrer. Apontou uma porta de cor negra, no fim de um corredor gigantesco._ esta lá dentro. Sua secretária, a dona Meire só chega depois das duas. Acho que podem ir lá. Espere... Irei ver se podem atendê-los. _ disse e se afastou. Pouco depois o velho Zacarias saia. Seu vulto magro e seco cambaleava pelo corredor. Ambos foram ao seu encontro.
_ Dispenso os elogios educados, senhores._ Disse ele num tom fraco_ tenho recebido muitos pêsames ultimamente e, entre eles de algumas cobras venenosas! Vamos tomar um ar mais fresco. Passo as noites olhando para o céu a procura de alguma coisa que me dê compreensão para minha dor! Olhem para os arredores... De que vale este império agora? Algumas pessoas me param e dizem sem saber o que estão falando: “que grande homem és, Sr. Zacarias..., como conseguiu tanto poder assim em poucos anos de trabalho...? Foi mesmo vendendo bugigangas portas em portas...?” _ Tolos! Pagam o almoço e ficam devendo o jantar! Agora isso não tem importância. Quando Eva estava em vida, sentia me orgulhoso desta fama idiota de ter conseguido tudo vendendo bobageiras porta em porta, exibia-me até, sem qualquer dor na consciência pela tamanha mentira! _ Maneou a cabeça contrariado. Estavam agora caminhando por baixo dos arvoredos cuidadosamente aparados. Dali podiam observar um grande mural de concreto com um grande Z a dez metros de altura, ladeado por pequenas palmeiras e outras plantas que não podiam ser indetificadas pela distância. Apontou-o com a mão e ficou olhando, com o rosto tenso, pensativo. Chutou uma pedra invisível e disse baixinho uma frase.
_ O que o Sr. Disse?_ Indagou Morim.
_ Disse que talvez ela sentisse algum orgulho por mim. O que ela faria por mim?
_ Não mantinham um certo diálogo intimo, de pai para filho?
_ Quando criança sim. Depois que casei novamente ela manteve-me a uma certa distância. Não deixava transparecer muitas emoções nas nossas conversas. Proibiu-me de dar-lhe conselhos. Irritava-se com facilidade nas nossas conversas. Compreendi o que ela estava sentindo e me acomodei. Quando casou com Heitor fiquei feliz. Era o que havia prometido para a mãe dela no leito de morte. Por isso seu nome era Eva. Foi uma escolha nossa, premeditada, antes dela nascer. Vou contar uma pequena história de minha vida. Quando eu era criança, meu avô, que também se chamava Zacarias, obrigava-me a ouvi-lo a contar a história de nossos antepassados. Claro que não o levava a serio. Era pequeno demais para entender certas coisas. Mesmo depois de adulto continuei a não levar a serio. Somente quando casei e tive os três primeiros filhos é que comecei a dar valor nas histórias da família.
_ Como deve saber, nós descendentes de portugueses, somos quase todos filhos dos cristão-novos, fugidos dos paises arábicos.
Os meus primeiros bisavós trocaram de nome quando entraram para Portugal e assim permaneceu por longos séculos, perdendo o verdadeiro nome da terra natal. Quando entraram no Brasil, voltaram a usar os nomes com sentidos iguais. Meu pai tinha o nome de Benyamim, e assim por diante. Fugi da regra. Nem um de meus filhos traz qualquer nome parecido. Certa noite quando voltei de uma de minhas viagens, sentia-me triste. Lembrei-me de meu velho avô, de meu pai, e de sua histórias. Senti-me muito envergonhado. Onde estavam a minha humildade? Perguntei para estrelas numa noite calma. Como estavam cuidadosamente arrumadas! Que sabia eu do passado? Quem era para quebrar uma velha tradição milenar? Procurei minha esposa e tivemos uma longa conversa. Um outro filho seria a solução.
Quando nasceu uma menina o seu nome já estava escolhido. Seria Eva. Quando se casasse e tivesse filhos, reiniciaria onde interrompi. Parece que não foi aceito por Deus. Meu Deus! Como pude falhar?
_ Ainda há os netos, senhor Zacarias. Porque não tenta novamente? Um guerreiro não o deixa o campo de batalha por uma baixa. Nosso lema é: Para frente sempre! Os dias do amanha devem ser preenchidos. Cabe a nós tal tarefa. Comece novamente. Faça o que seu avô fez. Sempre, sempre, sempre!
_ Não havia pensado nisto...! Sim, esta na hora de recomeçar! Os netos! Porque não pensei nisso antes?
_ Maria das dores, a empregada de Eva, conheceu-a?
_ Uma pessoa excelente. Ordenei que um contador procurasse uma de suas filhas. Ela trabalhava com Eva há vários anos. Tem seus direitos trabalhista. Soube de sua morte pelos jornais. Tinha a língua solta. Não pensava no que iria dizer. Certa vez fez-me um comentário franco, raro nas empregadas domésticas. Disse me que sentia mais simpatia por Heitor que minha filha.Perguntei o porquê. Respondeu que Eva era muito tola. Magoava o marido com suas amizades idiotas. Concordei com ela, sabendo a quem se referia. Ela estava falando de um casal que explorava Eva. Eram um belo par. Ela é muito bonita. Vi o marido uma vez, se não me falha a memória. Lamento. Não recordo seus nomes._ disse e passou as mãos pelo rosto suado. Morim olhou sua sobrancelha grossa. Aparecia uma pequena tocha de fios embranquecidos, desordenados, grandes e inrriçados.
_ Silvia..._ Disse Morim. Tocou de leve nos ombros do velho curvado._ Silvia Lemos. Um metro e setenta e cinco, olhos cor de mel, cabelos castanhos claro. Nariz romano, rosto suave.
_Ela mesma. Eram amigas íntimas. Não sei como ou onde se conheceram. Sei que Eva dava-lhe dinheiro vez por outra. Roupas e jóias também. Chamei Eva para dar lhe um conselho. Foi inútil. Ela não quis saber de conversa. Não toquei mais no assunto. Sei que isso pode ser até normal ajudar um amigo nas horas de aperto. Agora adotar um casal de marmanjos..., é muito diferente. Aí a lógica do comentário de Maria das Dores. Ontem tive um encontro rápido com ela, digo com a tal Silvia. Telefonou-me antes. Perguntou-me se queria doar-lhes alguns quadros de pintores regionais que pertencera a minha filha. Disse-me que Eva já havia lhe doados antes. Não fiz qualquer objeção. Não vale nada. Não para mim. Dei uma saída rápida e fui ate a casa de Eva.
A casa estava uma bagunça. Todos os quadros havia sido destruídos.Guarda-roupas revirados, como todas as gavetas dos armários. Ela aprontou um grande escândalo. Culpou Heitor pela destruição. Mandei que levassem todos os moveis para minha casa.
_ Acha que Heitor é o culpado?
_ Não sei. Seja quem for, quero o caso esclarecido. Doa a quem doer. Confio nos senhores, mais se falharem, tenho uma rede de detetives pronto para entrarem a ação. Não aceito meio termo. Basta de impunidades! Tenho sido alheio às dores dos outros, mas quando se sente na pele às dores é que a gente vê o quanto estamos atolados.Temos as mãos e pés amarrados! Espero que não tenha sido ele. Gostava muito dele. Um raro exemplar de honestidade. Uma pena que tudo isto tenha vindo acontecer...! Tinha grandes planos para ele!
_ O senhor tem funcionários mais antigos... Godim por exemplo.
_ Não, não. O Sr, esta enganado.Trabalhou sim, outrora. Agora faz parte do pessoal de Beladona, minha esposa. O ramo dela é produtos femininos, esmaltes, batons etc. Ele mesmo pediu sua transferência para lá. Aceitei. Bela disse que ele era muito mais útil para ela que para mim. Não fiz questão alguma. Era calmo demais para o meu gosto. Parece um boneco engomado! Elegância sim, exagero deixo para as mulheres.
_O senhor não tem estado com ela por estes dias, não é mesmo?
_ Sim. Estamos quase separados. Isto vem se arrastando há muito tempo. Meu advogado esta tocando o negocio para frente. Falei com ela por telefone ontem. Disse-me para esfriarmos a cabeça e recomeçarmos tudo de novo. Acho muito difícil. Tenho pensado muito depois que minha filha morreu. Ela tinha razão. Olhando o ninho por cima se descobre falhas irremediáveis. Faço isto por Eva. Talvez ela fizesse o mesmo por mim. Quem sabe?
_Sim senhor! Esta certo! Porque não? Porque não? _ Tornou a repetir Morim enquanto seu olhos brilharam rapidamente. Olhou para o companheiro.Abraão concordou com a cabeça.
Pouco depois ambos seguiam devagar pela estrada que parecia um forno.
_ Rodolfo... Comentou Morim _ temos que encontrá-lo,meu velho. Esta na hora de cobrarmos-lhe o pequeno favor.
_ Sim. Ainda estão curtindo a ressaca da solução do roubo das facas. Ele deve estar com alguma namorada socados em algum lago, pelados, celular desligado. Isto é bem dele. Chapada dos Guimarães é seu ponto predileto. Encontro ele em poucas horas.
*
_Olho abertos_ Disse Morim para os dois policiais que estavam na calçada, em frente à casa de Silvia Lemos. Faltava pouco para as oito da noite. Esperou que Abraão abrisse o pequeno portão do corredor, entre a casa e o muro, onde sairiam nos fundos. Menos de dez minutos ambos retornaram com um objeto embrulhado em um lençol. Já dentro do carro em movimento pediu informação por telefone a outro policial sobre o casal.
_ Estão dentro da igreja Matriz. A missa teve início neste momento. Deve terminar lá pelas nove e meia._ Morim suspirou fundo.
_ Estão rezando. Isso é bom. Como não são cristãos fervorosos, devemos deduzir que estão procurando ajuda divina desesperadamente.
Assim que ele acabou de desligar o celular, uma nova chamada foi feita. Levou-o ao ouvido e ouviu com atenção.
_Estamos a caminho! Acabaram de encontrar uma testemunha que viu o rosto do assassino de Maria das dores! Vamos ao retrato falado! As luzes do túnel começam a clarear, Abraão. Que encontrou?
_Estávamos certos! Veja! _ Abraão balançou um feixe de páginas no ar._ O velho Zacarias pode finalmente sentir orgulho da filha. Garota tola! Porque não procurou ajuda da policia?
_ Ainda não inspiramos confiança total, meu velho. E isso leva alguém deduzir que pode resolver os problemas sem a nossa ajuda. Esperemos que tudo caminhem bem, agora. Estou cansado. Não vejo a hora de tirar um bom cochilo. Mergulhe nestes documentos, homem de Deus! Estamos pertos, muito perto do fim.
.
*
Às duas horas da manha o telefone despertou Abraão. Era Morim.
_ No pronto Socorro. Espere-me lá.
Pouco depois ambos se encontraram. Morim estava agitado. Parecia um grande rato molhado a procura de oxigênio. Segurou Abraão pelo braço, acima do cotovelo.
_ Cometemos uma falha terrível! Tentaram matar Silvia Lemos!
_ Mas como? E os dois homens que deixamos de plantão?
_ Mais uma falha nossa. Subestimamos o assassino! Entrou na casa dentro do porta-mala do casal! Entrou enquanto estavam dentro da igreja! Para o bem de nossa consciência, ela esta viva. Vamos! Temos que ouvi-la!
Uma Silvia Lemos com olheiras profundas encarou os dois homens com altivez. Passou as mãos trêmulas sobre o rosto e soltou um suspiro profundo. Ainda estava assustada. Mesmo assim não retirou o olhar de crítica sob eles.
_ O senhor falhou, Doutor morim! Quase me mataram!
_ Sim, reconheço que cometemos uma falha. Isso prova que nós estávamos errados em alguns pontos. Conte-nos o que aconteceu.
_ Acordei com um leve barulho, e o primeiro ato foi acordar Lucas, meu marido. Ficamos por momentos em silencio a espera de mais barulhos, e, como naqueles breves momentos não mais aconteceu, deixamos de nos preocupar. Lucas disse que eram nossos nervos é que estavam-nos pregando peças. Voltou a dormir. Eu não consegui. Levantei e fui ate a cozinha, tomei um gole de água e voltei. Na volta pensei em ir até a sala onde poderia ver os dois policiais que estavam de plantão. Atravessei a sala, afastei a cortina e vi os dois lá fora. Isso me deixou calma. Na volta... Ao passar pelo corredor dei de cara com ele...! Tentei gritar... Mais ele foi muito rápido, só recordo de um pano em volta de meu pescoço... O pavor... A escuridão...!
_ O seu rosto... Viu seu rosto!
_ Sim, doutor Morim. Vi. Sei quem é.
*
_ Vejo que nossos homens interromperam o seu sono Sr, Godim. Mais uma vez sua facilidade em dormir após um crime, levou-lhe ao fracasso. Em todos estes anos de trabalho, tenho lidado com todos os tipos de mentes. Mas, devo lhe confessar que fico assustado quando me deparo com tipos como você. O que lhe leva a matar com tanta facilidade, se tem uma vida acima do normal, sonhada por milhares de pessoas em todo mundo? Um animal predador mata para alimentar-se de sua vítima, em um processo normal da natureza. A comparação soa ridícula, já que conheces muito bem as cores da nossa bandeira, não é mesmo senhor Godim? _Disse Morim sem encará-lo. Estava em pé, em frente da janela, olhado para fora, com as mãos para traz. Godim estava sentado, cabisbaixo, olhando suas mão brancas, orneadas por anéis de ouro. Deu um leve tossido e disse:
_ Quero meu advogado.
_ Claro, claro. Terá seu advogado. Antes diga a nós por que matou Silvia Lemos. Vamos Sr., Godim. Esta numa enrascada feia. Porque a matou? Por ciúmes? Porque ela sabia demais? Ela foi testemunha de algum outro crime?
_ Meu advogado.
_ Esta bem, Sr Godim. Antes, porém, devemos lhe mostrar porque somos quase infalíveis. Abraão, mostre a ele.
Abraão rodeou a mesa e colocou um pequeno embrulho em cima desta.
_ Sabe o que temos aqui? O quadro que você foi pegar na casa de Silvia lemos. Não se espante. O que levou era falso. Colocamos lá antes de você entrar na casa pelo porta mala do carro dela. Sabe muito bem o que tinha por traz desta bela pintura. É todo seu Morim. Godim soltou um leve suspiro.
_Sim senhor. _ Disse Morim saindo da janela e sentando. _ _Matou Eva para lhe calar a boca. Beladona Zacarias. Que nome! Recebe ordens só dela, Heim? Não foi o que me disse na nossa último conversa? Para o seu azar, os federais há tempos que estão de olho nesta bela senhora. Tráfico, lavagem de dinheiro, prostituição de menores. O que levou Eva a desconfiar dela? Este papel que você procurava! Anotações que pararam nas mãos dela por acaso! Passou então a ameaçar a madrasta, exigindo que esta se separasse do pai! Em troca devolveria as provas. Como não tinha lugar seguro para guardar as pravas, colocou-a por traz de um simples quadro. Como vocês não são burros, deduziram logo que as provas estariam por perto, aos olhos dela. Então veio a ordem para matá-la. Acontece que você nunca gostou de Heitor. O fato de um simples motorista casar com a filha de seu patrão, que um dia sonhou que fosse sua, era demais para sua mente assassina. E naquela noite quando bebia com ele, veio-lhe então a idéia macabra: matar dois coelhos de uma só pancada. Receberia uma boa grana para livrar-se dela, e, por cima jogar a culpa em cima do marido que nunca gostou. Seguiu ele a noite toda, por fim, também dentro do porta malas, procurou um lugar seguro dentro da casa, e esperou que ele deitasse bêbado, quando Eva chegou, matou-a a facadas. Foi até ao quarto dele e o sujou-o cuidadosamente com o sangue dela. Preparou dois copos com bebidas, várias latinhas de cervejas e colocou ao lado do corpo. Estaria tudo perfeito se não fosse sua frieza assassina, Sr. Godim. Foi para casa e deitou um pouquinho para relaxar, e pegou no sono. Isso pôs tudo a perder. Quando acordou era tarde demais para ligar para policia!Heitor já havia dado no pé. Foi como esta noite. Matou e voltou para dormir. Um erro fatal!
_ Esta bem. Perdi o jogo. E quanto a ela, beladona?
_ Abra o jogo para os dirigentes da velha senhora cega. Eles te darão proteção. Mais anda falta algo. Não estamos esquecendo de mais um crime? Porque matou Maria das Dores, empregada de Eva?
_ Não sei quem é. Nunca ouvi falar dela. Neste caso aí estou limpo. Palavra. Torno afirmar: não sei quem é.
_ Esta bem, Sr. Godim. Para sua sorte Silvia Lemos não morreu. Esta viva e passa muito bem. Seu advogado já chegou.
Godim suspirou fundo e maneou a cabeça, irritado.
*
_ Vejo que recuperou muito bem. Isto é bom. Mostra que é forte para suportar os desenganos que a vida oferece. Viemos lhe devolver o pequeno quadro, “o solitário”.Foi muito oportuno o comentário que fez sob Eva gostar de apreciar a pintura. Graças a ele, conseguimos desbaratar a quadrilha de Beladona. Lamentamos que a pobre Eva tenha perdido a vida. _ Disse Morim de onde estava sentado. Seus olhos brilharam por instantes. Em sua frente estava o marido, alto e elegante, dentro de um par de roupas escuras, sapatos da mesma cor e meias brancas. Seu olhos azuis estavam profundos e opacos, avermelhados. Esfregou as mãos e deixou-se se encostar ao espaldar do sofá.
_ Sim. _ Disse Silvia_ pobre Eva. Tão gentil, tão ingênua. Porque não confiou em mim os documentos? Teríamos evitado tantas tragédias! Mas acho que foi pensando em nós que ela preferiu esconder tudo. Imagine! A própria madrasta! É o fim do mundo! Pobre Eva! Tinha um coração de ouro! Gostava de ajudar as pessoas!
_ Sim, concordamos. Foi bastante generosa doando as mil reais para sua empregada, Maria da Dores. O dinheiro irá ajudar na construção da casa de umas de suas filhas. Muito generosa mesmo. _ Comentou Morim.
_ Heim? O que o Sr. disse? Que Eva doou mil reais para Maria? Quem lhes disse tamanha besteira, com todo respeito?
_ Encontramos um cheque neste valor, destinada a ela. Então acha que não foi uma doação? Também temos nossas dúvidas. Alias, temos toda certeza que não foi bem sequer uma doação. Mais houve o consentimento de Eva. Ela foi obrigada a fazer a tal doação. Foi aconselhada a fazer. Na verdade foi uma tentativa de fazê-la calar a boca!
_ Não estou lhe entendendo, Doutor Morim. Pode ser mais claro?
_ Ora, é tudo muito simples. Como era uma pessoa íntima, com toda certeza, sabia bem da vida particular de Eva. Sabia, por exemplo, quem era o amante dela. E, ela e o amante, sabendo da simpatia que Maria nutria por Heitor, o melhor eram mantê-la sob controle. Fazia isto com pequenos presentes, como roupas, etc. Enquanto Eva estava viva, ela esteve em segurança. Se ela estava morta, porque não matar também a empregada que sabia demais? Ela poderia falar e fazer graves acusações! Desesperado, mesmo sem nada dever, preferiu matá-la! Cometemos um erro que custou a vida da pobre empregada! Não levamos a serio o que nos disse a irmã de Heitor sobre um possível amante de Eva! Teria Maria das Dores revelado o nome do amante? Seria ela fiel como à senhora, dona Silvia? Ela esconderia o nome do amante? Não! Ela iria falar! A patroa estava morta. Seria uma forma de vingança! Seu assassino deduziu isto e não quis correr o risco. Mas por quê? Porque matá-la? Seria apenas para não ter seu nome revelado como amante de Eva? Não! Não foi por isso. Ter a identidade do assassino foi até bastante fácil, já que ouve testemunhas. Não procurou nem sequer tapar o rosto quando deixou a vitima. Matar não basta, é preciso ter motivos. Estes motivos também já sabemos.
_ O Sr. esta louco! Já lhe disse que Eva não tinha nenhum amante! Pare de ofender minha amiga!
_ A sua veemência em defender a amiga colocou-a sob desconfiança, minha senhora. Porque se agarrou a esta defesa, quase infantil? Não foi para defender o nome da amiga morta, não é verdade?
Algo mais estava em jogo! Dinheiro! Sempre dinheiro! Este belo apartamento em que vivem pertencia a Eva. Desde livros a faculdade. Estava realmente apaixonada por você, Lucas. Deu-lhes de presente sem jamais entregar os documentos de posse. Não era tão tola como podiam imaginar. Sabendo que desta maneira tinha o amante por perto, sem correr o risco de perdê-lo! E o corte na mão, senhor Lucas, esta melhor? Ficou deveras irado quando destruiu todos os moveis de Eva por não encontrar os papeis da posse,heim? Foi uma bela desculpa esta de pedir os quadros para o velho Zacarias. Destruir e fazer uma bela encenação perante o velho Zacarias, jogando todo o ato sob Heitor.
_ Diga alguma coisa, Lucas! Não fique aí parado como se nada estivesse acontecendo! _ Gritou Silvia dando um salto para o centro da pequena saleta.
Morim olhou para ele. Estava de cabeça baixa com as mãos no rosto. Ficou assim por instantes. Quando levantou o rosto, seus olhos estavam de um vermelho brilhoso, de lágrimas. Maneou a cabeça e levantando-se parou em frente da mulher. Seu rosto estava tenso.
_ Acabou. Não percebeu? Acabou! Tudo por sua culpa! Tornou me um assassino por nada! Obrigou me a matar por nada. Ela nunca iria dizer nada! Nada! Ela já havia me prometido! Nada!
_ Sente-se, Sr. Lucas. É tarde demais para chorar sobre o leite derramado! _ disse Morim forçando-o a sentar_ Tiveram a faca e o queijo na mão. Exploraram Eva o máximo que puderam. Na verdade ela era uma santa de uma ingênua. Não contou então para a esposa que havia aconselhado Eva a doar os mil Reais?
_ Ela e Maria tiveram uma pequena discussão. Eva andava nervosa desde que os papeis passara para sua mãos. Pensou em queimá-los, e esquecer tudo que descobrira sob a madrasta. Certa noite Beladona ousara ofendê-la com uns palavrórios. Isto mudou todo seu comportamento. Passamos uma noite em claro para tentar resolver o problema. Depois da discussão que tivera com beladona, tornara-se difícil persuadi-la a tirar a idéia da cabeça, a de obrigar beladona a pedir o divórcio de seu pai. Numa manha, ela rasgou o jogo, não estava perto para presenciar o que aconteceu. Mais depois deste dia ela vivia em estado de conflito. Certa noite mencionou o desejo de esconder as provas contra Beladona onde ninguém poderia imaginar. “Colocarei os documentos de posse do apartamento junto, meu bem” disse ela em tom de brincadeira. Não a levei á sério. Esta semana tive a idéia que eles poderia estar por traz dos quadros. Esteve tão perto de nós, bem ao alcance de nossas mãos! Estávamos pensando em ir embora para longe, depois que tudo acabasse. Eva e eu.
_ Seria capaz disso, Lucas? Você seria capaz de me deixar? Seria?
_ Lamento, Silvia. No amor e na guerra vale tudo.
_ Não! Não é possível!
_Deveria ter pensado nisto antes. Quanta vez lhe disse para seguirmos nossos próprios cominhos, sem ter que dependermos de Eva?
_Sinto ter que interrompê-los. Nosso lema é: A Verdade acima de tudo. Cometeu um crime, Sr, Lucas. Nada justifica um assassinato. A lei e bastante clara sob este aspecto: tirar a vida de um ser humano somente em ultima hora e em defesa de si mesmo, ou de uma outra, mediante risco de ser assassinado, etc. O que fez? Que Maria das Dores seguinificava em termos de ameaça para ambos? Ora, nada! Poderia ter sido resolvido com uma boa conversa...
_ Não foi bem assim. Quando Silvia me disse que os senhores iriam ter uma conversa com ela, pensamos logo em ir ter com ela antes. Silvia não quis ir. Então fui só. Ela me recebeu muito mal. Disse-me que não tinha nada a conversar com um assassino.
“Como é capaz de dizer isto, Maria? Não sabe que eu a amava?” Disse-lhe eu, já lá nos fundos do quintal. Ela riu de mim dizendo que eu não passava de um gigolô, aproveitador da bondade de Eva. E que iria dizer tudo a policia assim que fosse perguntada. Tentei convencê-la de que estava errada, que não era aquilo que ela estava pensado. Tudo inútil. Continuou a me ofender, o que me fez perder a paciência. Falava aos gritos, aproximei-me dela para pedir calma, cuspiu-me no rosto. Assassino! Matou ela para ficar com o apartamento! Pensa que não sei?”Continuou a gritar, enquanto tentava pegar uma foice para me atingir. Agarrei-a por traz. Mantive-a assim ate que senti que ela estava mole. Soltei-a no chão. Vi, então que ela estava morta. Deixei-a onde estava e saí como um louco. Não queria matá-la! Por Deus, não queria!”.
_ Sabemos, Lucas, sabemos. Por isso foi a uma igreja rezar, pedir perdão pelo crime cometido. _ disse Morim dando um estalo com as mãos. Alguns policiais aproximaram se de Lucas. Este estendeu os braços._Nada mais resta...! Desde que Eva morreu nada mais resta! _ Disse, virando as costas para a esposa. Ouviu-se então um soluço profundo, cortante._ Deixem-na em paz, ela nada deve. Assumo toda culpa.
*
_ Milhares de ano separam de nós o primeiro assassinato, mesmo assim, parece que nada mudou. Crimes e mais crimes. Que terrível desvio existe na mente humana? O ato de executar, mostra claro uma terrível vocação de superioridade sob os outros. Superioridade! Sempre existiu. Não era essa a religião de Hitler? Matam-se por nada! Banalizou. Violência, Por que voz quero? _ comentou Morim com o rosto colado no vidro da janela.
_ Aperta-se um botão e lá esta ela. _ Disse Abraão com o rosto enfiado nos noticiários do jornal.
_ Você tem razão. Nós, adultos, sabemos bem o que é ficção. Mas, e uma criança? Essa fina linha, que liga o bom senso ao desvio, não poderia ser afetada por ver tanta violência junta? E o sexo, banalizou? Se assim é, acabou a graça. Ah! Lá vem ela! Acertamos mais uma vez.Traz uma sacola. A triste sombra que lhe cobria o rosto, desapareceu. Uma bela recompensa para o nosso esforços! Ainda vale a pena acreditar em algumas pessoas! Seria uma lástima ver tão belo rosto marcado por profundas tristezas! Vejamos o que tem a nos dizer.
_ Dr. Morim! Abraão! Vim-lhes agradecer! Tudo começa a voltar ao normal. As pessoas já não nos olham mais com desconfianças. Até mesmos velhos conhecidos que haviam se afastados, voltaram para pedir desculpas! Bem... Somos cristãos... Perdoamos. O Sr. Zacarias telefonou. Derramou-se em desculpas, dizendo que Heitor continua sendo seu genro. O que queremos é que tudo volte ao normal, ao mais rápido possível. Lamento muito por Eva e Maria. Quero lhe pedir desculpas pelos olhares atravessados que lhes dirigi. Mas vejo que ainda vale a pena acreditar em algumas pessoas!
_ Obrigado. Sabe, como humanos que somos às vezes cometemos erros. Fazemos alguns prejulgamentos. E quando erramos, nada mais justo que recompensar a pessoa falada. Vamos todos tomar alguma coisa gelada?
_ Espere! O que foi que disseram de mim?
_ dissemos que as cunhadas, às vezes falham em suas observações.
_ Eu jamais iria dizer, se não tivesse absoluta certeza. Só não sabia quem era. Tome! Sua fama chegou ate mim!
_ Mamões! Que maravilha! _ disse alegremente Morim. _ Abraão, meu velho, ajude-me aqui!
_ O Sr. poderia me dizer por que gosta tanto desta fruta?
_ Então não sabe, minha jovem? É que ajuda muito o meu pobre estômago. Ajuda a digerir certas coisas que tenho que engolir.
A alegre gargalhada de Blenda soou na rua vazia, num fim de tarde cinzenta.
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